Duas da tarde,
tempo nublado no meio da semana. Pessoas nas ruas por diversos motivos.
Então, trovoadas e relâmpagos tornam todos mais apressados. A iminência da
chuva deixa os compromissos em segundo plano. Não estou correndo pra chegar a
tempo ao banco; a reunião pode esperar; o comércio só fecha às seis. A
prioridade única é não se molhar. Então, como temido e esperado, ela desaba. A
chuva cai como um cobertor no corpo estendido no frio. Mas apenas no início,
logo pingos tornam-se grãos e o que era pressa vira desespero pra escapar de
uma tarde de roupas ensopadas e qualquer lugar é abrigo: a padaria, a marquise,
o ponto de ônibus, o guarda chuva do precavido desconhecido. Todos correm,
menos uma pessoa, que segue seu ritmo como se nada estivesse desabando sobre
sua cabeça. Ele continua andando sem se dar ao trabalho de ao menos fechar o
casaco. A principio, parece que está apenas curtindo a sensação de se molhar
sem culpa, coisa que a maioria das pessoas adoraria fazer, mas a
responsabilidade não permite. Não, ele parece estar absorto em algum pensamento
que o preocupa a ponto de se despreocupar com a chuva. Seria uma dívida
impossível de ser paga? Um ente querido enfermo? Seu time de futebol na zona de
rebaixamento?
A expressão de
seu rosto não dá nenhuma pista. Seus olhos piscam mais do que o rotineiro
devido à água que vem de encontro. Em sua mão esquerda, uma pequena valise de
cor preta, discreta e um relógio de pulso prateado, provavelmente à prova
d'agua. Ele chega na esquina e finalmente esboça uma expressão relacionada à
chuva. A rua está alagada e atravessá-la sem afundar o pé na água será difícil.
Um pequeno impulso e pronto, temos um tênis encharcado. Um resmungo e ele segue
adiante, com a chuva como companhia. Nessa hora eu o perco de vista, pois minha
janela não permite ver toda a extensão da rua. E eu continuo, então, a observar
os transeuntes. Todos se molhando, apressados, reclamando e tentando se
proteger da chuva. Menos aquele rapaz da valise preta.
