segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Círculo

Estava sentado na poltrona do quarto lendo o seu livro preferido pela quinta vez. Tinha sido um dia meio entediante, mas pelo menos pôde descansar a cabeça e o corpo. Coisa que não conseguiu fazer durante a semana por causa do trabalho estressante. Trabalho que só o segurava porque pagava bem e tinha uma conta enorme pra pagar: cartão de crédito. E essa conta só estava enorme porque resolvera comprar um presente pra Laurinha, que, aliás, não merecia. Laurinha essa que o convenceu a terminar com a Diana pra tê-lo só pra ela. Diana o fazia feliz, porém tinha pouco tempo pra ele e ele, pra ela. Se arrependera de ter mudado de emprego, pois o anterior pagava menos, mas antes ele tinha vida social. Vida social esta que, antes do emprego, se resumia a encontrar os ex-colegas da faculdade naquele bar meia-boca pra tomar a cerveja mais barata que tinha, pois estava sempre duro. Não era sempre no mesmo, pois às vezes pingava uma graninha de uns trabalhos free lancer que fazia mas que estavam raros naquela época e, então, juntava os amigos e iam no bar da esquina que era menos pior. Porém foram esses trabalhos que o sustentaram durante toda a faculdade. Faculdade essa que não era a que ele mais queria, mas foi a que conseguiu fazer. A segunda, aliás, porque antes tinha se matriculado no mesmo curso que a namorada da época, só pra ficar mais tempo com ela. Coisa de guri desocupado. Mas foram os quatro meses que mais se divertiu com uma namorada, até ela terminar com ele. Muita distração e pouco estudo. Logo após o término, deu adeus ao curso, o que não deixou de ser um alívio. Quando começou o namoro, estava no fim do curso de espanhol, idioma que sempre tivera dificuldade em compreender. Mas tinha um sério motivo pra aprender essa língua: queria saber ler em espanhol. Tudo isso por causa de um livro que descobrira no início do ensino médio, na biblioteca semi-abandonada da escola. O livro estava em português, mas fora traduzido do espanhol. Apaixonou-se pela história e decidiu que tinha que ler no idioma original.
Quando o fez pela primeira vez, estava sentado na poltrona do quarto lendo.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

SMS

Pois é, eu te disse. É sempre assim, mas tu nunca me escuta. Agora ta aí, se lamentando. Quantas vezes eu te escutei reclamando e quantas vezes eu disse pra ti fazer aquilo? Não quero nem saber, te vira. Eu lavo minhas mãos. Com sapólio radium e detergente. PT saudações.

Oi, desculpa, estava ocupado e não pude atender. Mas já sei o que tu queria. A resposta é não. NÃO. No. Nein. No, né? Pode ligar, mandar carta, email, sms, sinal de fumaça, pombo, whatsapp com foto. Não vou mudar de ideia. 

Mandar a mãe ligar é sacanagem, né? Que tu tinha que botar a véia no meio? É brincadeira!

Olha só, ta apelando. A mãe já me ligou cinco vezes hoje. As últmas três eu não atendi. E disse que se é pra falar sobre esse assunto que nem perca o tempo que não vou atender. E se atender vou desligar na cara. 

Tá, vou te dar uma chance, vou no boteco. Mas é a última chance. Chego lá às nove, se não estiver lá, nove e duas vou embora. 

Olha só, pintou um problema e não vou poder ir, desculpa. 

Óbvio que não to me fazendo! Eu sou tu, por acaso?

Não mesmo, eu mantenho a minha palavra. Amanhã, então no mesmo horário. Não te atrasa!

Cheguei, cade tu? 

Olha, vou ser sincero, também gostei do nosso encontro. E acho que tu foi bem convincente. Já tenho a tua resposta. 

Não, nada a ver, não viaja. Tu quer saber ou não a minha resposta?

Pois então, apesar de tudo que aconteceu e do que tu fez, acho que posso te dar mais uma chance. A ÚLTIMA. Por favor, não pisa mais na bola comigo. 

Não, não vamos começar de novo, deixa assim. 

Ok, é o que eu mais espero!

Também te amo! Beijos!