Estou há tanto tempo preso aqui que nem lembro mais o motivo. Nem
lembro mais como é o mundo, aliás. Somente o que vejo pelas grades
de minha cela. E que não é lá uma bela vista. Minha vida está
resumida na rotina dentro dessas quatro paredes. Dormir no colchão
de panos, acordar, fazer algum exercício pro corpo não definhar tão
rápido, comer as intragáveis refeições que o guarda deixa pela
fresta da porta e falar sozinho pra não enlouquecer. A mente padece
mais que o corpo nesse estado. Não ter o que ler, o que ouvir nem o
que escrever é enlouquecedor. As paredes já estão cobertas com
palavras escritas com pedaços de tijolo, pedra, madeira, até mesmo
sangue. Coisas escritas e re-escritas. Lê-las é outra parte da
minha rotina. E reler. Já as sei de cor. Mas após ter enchido pela
primeira vez as paredes, e o chão inclusive, de palavras e
sobrescrever uma, duas vezes acabei ficando com remorso por ter feito
isso. Então nunca mais apaguei. O tempo já nem conto mais pelo
simples fato que não faz mais sentido saber as horas ou que dia
estou. São todos iguais.
Os guardas não falam comigo. Mas eu os ouço. Três vezes por dia eu
me deito o mais rente possível da porta e os escuto trocar três ou
quatro palavras cordiais entre si. Não são amigos, mal conversam
entre si. Nesses anos todos, foram somente três guardas. Nunca vi um
faltar ao serviço, pelo menos desde que eu passei a observá-los.
Apesar de nunca ter visto nenhum deles, penso que são todos altos e
provavelmente fortes. Imagino isso baseado na voz e nos passos. Não
tive a curiosidade de saber como eles aparentam. Seria até engraçado
um dia eu descobrir que são baixos ou magricelas. Mas provavelmente
nunca saberei, morrerei sem saber.
Falando em morte, após todos esses anos tenho pensado em dar um fim
a essa vida, se é que posso chamá-la assim. Apesar da rotina ser o
que sustenta a minha sobrevivência aqui, está me cansando. Demais.
Fico pensando nos modos que me são possíveis, dado o pouco material
disponível em minha cela. Poderia desmanchar a minha cama e fazer
algum tipo de corda e me enforcar usando as barras das grades ou da
janela. Mas esses panos estão tão podres e desgastados, que não me
sustentariam. Pensei em comer a minha própria língua. Porém sou
covarde demais pra isso.

Estava tendo esses interessantes pensamentos quando vejo um vulto
passar pela minha frente. Um vulto bem pequeno, cinza, tão ligeiro
que mal o notei. Cruzou a minha cela e se enfiou em um buraco ínfimo
na parede. Um ratinho. Mais um. Mas é o primeiro que passa à luz do
dia, enquanto eu estou acordado. Geralmente eles passam à noite,
quando eu paro de falar ou de fazer meus exercícios. São educados,
os ratos. Mas esse passou em plena tarde e bem perto de mim. É
curioso isso, ele deveria estar faminto. Continuo minha rotina, que
não demora muito pra ser interrompida pela presença do animalzinho.
Ele passa rápido novamente, mas em direção ao buraco que tinha
saído antes. Comecei a ficar interessado nesse bicho. Iria me
distrair um pouco. Do mesmo modo que um passarinho fazia antes, há
alguns anos atrás, creio.
Passei e deixar algumas migalhas daquele pão horrível que recebo
todos os dias. No início, eu não o via pegando, se é que ele o
pegava pois acabava pegando no sono. Maldita rotina. Porém, com o
tempo, o meu pequeno amigo foi ficando menos tímido e pudemos
iniciar uma “conversa”, digamos assim. Eu deixava uma migalha,
ele comia. O impressionante é que virou um hábito. E sempre na
mesma parte do dia: à tardinha. Foi quando eu pude percebê-lo
melhor. Era um camundongo cinza, com uma orelha bem machucada pelas
intempéries da vida, talvez. O rabo já tinha perdido a ponta. E o
pelo era cinza,o que restava dele, pois estava tomado de sarna. Tinha
até esquecido de me matar. Aquele pequeno animal tinha virado minha
companhia, virou parte da minha rotina. Quase me senti feliz por
isso.
Porém alguma coisa aconteceu. Um dos guardas começou a não
aparecer. Um, dois dias. Depois voltou e tornou a faltar. Até que
nunca mais veio. Era o guarda do café da manhã. Do pão horrível
que o ratinho comia. Estranhamente não houve substituição.
Simplesmente não vinha mais café da manhã. Quando o outro guarda
veio trazer a refeição, perguntei o que acontecera. Obviamente não
obtive resposta. A comida ficou mais escassa após o abandono do
guarda do café. Reclamava, mas uma refeição a menos me deixou
menos disposto às atividades físicas e mais sonolento. Minha rotina
tinha sido novamente alterada. Foi quando outro guarda deixou de
aparecer. Estaria eu sendo abandonado à minha própria sorte? Agora
era o do jantar que sumira. O ratinho e eu já estávamos minguados.
E aquela sarna dele, que tinha dado uma melhorada, voltou a ficar
feia. Uma refeição por dia. Uma horrível refeição por dia. Eu
perdi peso, mas ainda dava pra levar. Comia o que podia e ainda
deixava um pouco pro ratinho sarnento. Que mudou sua rotina pra ter
comida. Ratinho esperto. Realmente me apeguei a esse bicho. Sua única
qualidade era roubar minha comida no mesmo horário. Mas ainda assim,
me sentia bem com sua companhia.
E então, o que era esperado aconteceu. O guarda restante também
sumiu. Não adiantou nada eu gritar e bater na porta da cela. Ninguém
veio. Parecia que eu estava sozinho em uma masmorra. Fui deixado,
largado. Era eu e o ratinho. Esse ratinho sarnento que vinha todos os
dias roubar a minha comida, que não havia mais. Mas ele continuou
vindo. Vinha e dava uma ou duas voltas até perceber que não tinha
nada pra ele e voltava pra sua toca. E a fome aumentando. Ta aí um
modo que ainda não tinha pensado: morrer de fome. Talvez por querer
algo rápido e, por sorte, indolor. Morrer de inanição é algo
lento e torturante. Mas o pior é a fraqueza. Não há vontade de
fazer nada. Só ficar deitado, semi-desperto, porque o estômago não
te deixa dormir. E o ratinho continuava vindo. Não sei porquê, já
que era mais do que sabido que não ganharia comida. Uma coisa
curiosa é que ele ficava alguns segundos perto de mim e depois
voltava pra sua toca. Comecei a pensar o que o ratinho faria depois
que eu morresse. Talvez ele estivesse somente esperando isso pra
começar a roer a minha carne. Ratinho sarnento maldito, não
servirei de alimento pra um animal desse tipo.
Comecei a bolar um plano para evitar que isso acontecesse. Não veio
nada na cabeça cheia de fome. Nessa hora ele apareceu e fez o que
sempre fazia. Veio, ficou alguns segundos, mas dessa vez não voltou.
Eu o agarrei com o resto de agilidade que tinha e mordi sua cabeça
com os dentes saudáveis que me restava. Aquele gosto de pelo e
sangue me enojou, mas acabei comendo todo o ratinho sarnento.
Mastiguei o menos possível. Arranquei fora aquele rabo nojento dele.
A fome passou. Uma saciedade que não sentia há anos me veio
estômago acima. Até dormi uma noite tranquila.
A única. O corpo daquele animalzinho me deu fôlego pra mais uns
dias de sofrimento. Mais uns dias sem comida, sem bebida, sem força,
sem ânimo. E que saudade do ratinho.