terça-feira, 19 de novembro de 2013

Complete a história

Texto criado a partir de uma atividade proposta pelo André Barros no encontro do dia 19/11/13 na turma A do Invitro- Laboratório de Escrita Criativa em que cada participante deveria continuar um texto e depois passar para o colega do lado até chegar novamente em mãos, tendo então, que finalizar. Esse é o meu. 
A parte em negrito é o início proposto pelo André. Depois, a minha contribuição. As partes em itálico foram escritas pela Andréia Pires, Raquel Schenque e Vânia Oliveira e pelo próprio André. O texto é finalizado por mim. 
Creio ter ficado bem interessante. 


A última grade abriu e ele hesitou, congelou. Tinha passado tanto tempo na prisão que a sensação de liberdade o amedrontava e lhe causava um desconforto generalizado. Queria sair, queria ver a esposa, os filhos, que já deveriam estar adultos, mas o medo...
...da rejeição o acovardava. Depois de anos nessa situação, vê-los era o que mais... o assustava. Será que... ele havia tomado a decisão correta em deixar tudo tão próximo de uma tragédia?... Claro que não! Dentro do seu íntimo mais profundo o ódio ainda o dominava e fazia os horrores vividos voltarem a ferver em suas veias como uma chaleira no fogão... Sentia muita vontade de cometer mais um erro, o derradeiro, talvez. Aquele que o libertaria desses sentimentos que o atormentavam. Sua família ficaria bem sem ele, tinha quase certeza, já. E, fazendo isso, quem sabe deixaria de ser um fardo para todos. 
Na parada em frente à penitenciária, vinham dois ônibus. Dois caminhos a seguir. Um para sua família, outro, sabe-se lá pra onde. A tensão e a vergonha estavam em um peso, a saudade, no outro. A balança perfeitamente equilibrada. Os ônibus se aproximando, se aproximando. Passou um. Passou o outro. 
Resolvera pensar mais um pouco. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Rotina

Estou há tanto tempo preso aqui que nem lembro mais o motivo. Nem lembro mais como é o mundo, aliás. Somente o que vejo pelas grades de minha cela. E que não é lá uma bela vista. Minha vida está resumida na rotina dentro dessas quatro paredes. Dormir no colchão de panos, acordar, fazer algum exercício pro corpo não definhar tão rápido, comer as intragáveis refeições que o guarda deixa pela fresta da porta e falar sozinho pra não enlouquecer. A mente padece mais que o corpo nesse estado. Não ter o que ler, o que ouvir nem o que escrever é enlouquecedor. As paredes já estão cobertas com palavras escritas com pedaços de tijolo, pedra, madeira, até mesmo sangue. Coisas escritas e re-escritas. Lê-las é outra parte da minha rotina. E reler. Já as sei de cor. Mas após ter enchido pela primeira vez as paredes, e o chão inclusive, de palavras e sobrescrever uma, duas vezes acabei ficando com remorso por ter feito isso. Então nunca mais apaguei. O tempo já nem conto mais pelo simples fato que não faz mais sentido saber as horas ou que dia estou. São todos iguais.
Os guardas não falam comigo. Mas eu os ouço. Três vezes por dia eu me deito o mais rente possível da porta e os escuto trocar três ou quatro palavras cordiais entre si. Não são amigos, mal conversam entre si. Nesses anos todos, foram somente três guardas. Nunca vi um faltar ao serviço, pelo menos desde que eu passei a observá-los. Apesar de nunca ter visto nenhum deles, penso que são todos altos e provavelmente fortes. Imagino isso baseado na voz e nos passos. Não tive a curiosidade de saber como eles aparentam. Seria até engraçado um dia eu descobrir que são baixos ou magricelas. Mas provavelmente nunca saberei, morrerei sem saber.
Falando em morte, após todos esses anos tenho pensado em dar um fim a essa vida, se é que posso chamá-la assim. Apesar da rotina ser o que sustenta a minha sobrevivência aqui, está me cansando. Demais. Fico pensando nos modos que me são possíveis, dado o pouco material disponível em minha cela. Poderia desmanchar a minha cama e fazer algum tipo de corda e me enforcar usando as barras das grades ou da janela. Mas esses panos estão tão podres e desgastados, que não me sustentariam. Pensei em comer a minha própria língua. Porém sou covarde demais pra isso.
Estava tendo esses interessantes pensamentos quando vejo um vulto passar pela minha frente. Um vulto bem pequeno, cinza, tão ligeiro que mal o notei. Cruzou a minha cela e se enfiou em um buraco ínfimo na parede. Um ratinho. Mais um. Mas é o primeiro que passa à luz do dia, enquanto eu estou acordado. Geralmente eles passam à noite, quando eu paro de falar ou de fazer meus exercícios. São educados, os ratos. Mas esse passou em plena tarde e bem perto de mim. É curioso isso, ele deveria estar faminto. Continuo minha rotina, que não demora muito pra ser interrompida pela presença do animalzinho. Ele passa rápido novamente, mas em direção ao buraco que tinha saído antes. Comecei a ficar interessado nesse bicho. Iria me distrair um pouco. Do mesmo modo que um passarinho fazia antes, há alguns anos atrás, creio.
Passei e deixar algumas migalhas daquele pão horrível que recebo todos os dias. No início, eu não o via pegando, se é que ele o pegava pois acabava pegando no sono. Maldita rotina. Porém, com o tempo, o meu pequeno amigo foi ficando menos tímido e pudemos iniciar uma “conversa”, digamos assim. Eu deixava uma migalha, ele comia. O impressionante é que virou um hábito. E sempre na mesma parte do dia: à tardinha. Foi quando eu pude percebê-lo melhor. Era um camundongo cinza, com uma orelha bem machucada pelas intempéries da vida, talvez. O rabo já tinha perdido a ponta. E o pelo era cinza,o que restava dele, pois estava tomado de sarna. Tinha até esquecido de me matar. Aquele pequeno animal tinha virado minha companhia, virou parte da minha rotina. Quase me senti feliz por isso.
Porém alguma coisa aconteceu. Um dos guardas começou a não aparecer. Um, dois dias. Depois voltou e tornou a faltar. Até que nunca mais veio. Era o guarda do café da manhã. Do pão horrível que o ratinho comia. Estranhamente não houve substituição. Simplesmente não vinha mais café da manhã. Quando o outro guarda veio trazer a refeição, perguntei o que acontecera. Obviamente não obtive resposta. A comida ficou mais escassa após o abandono do guarda do café. Reclamava, mas uma refeição a menos me deixou menos disposto às atividades físicas e mais sonolento. Minha rotina tinha sido novamente alterada. Foi quando outro guarda deixou de aparecer. Estaria eu sendo abandonado à minha própria sorte? Agora era o do jantar que sumira. O ratinho e eu já estávamos minguados. E aquela sarna dele, que tinha dado uma melhorada, voltou a ficar feia. Uma refeição por dia. Uma horrível refeição por dia. Eu perdi peso, mas ainda dava pra levar. Comia o que podia e ainda deixava um pouco pro ratinho sarnento. Que mudou sua rotina pra ter comida. Ratinho esperto. Realmente me apeguei a esse bicho. Sua única qualidade era roubar minha comida no mesmo horário. Mas ainda assim, me sentia bem com sua companhia.

E então, o que era esperado aconteceu. O guarda restante também sumiu. Não adiantou nada eu gritar e bater na porta da cela. Ninguém veio. Parecia que eu estava sozinho em uma masmorra. Fui deixado, largado. Era eu e o ratinho. Esse ratinho sarnento que vinha todos os dias roubar a minha comida, que não havia mais. Mas ele continuou vindo. Vinha e dava uma ou duas voltas até perceber que não tinha nada pra ele e voltava pra sua toca. E a fome aumentando. Ta aí um modo que ainda não tinha pensado: morrer de fome. Talvez por querer algo rápido e, por sorte, indolor. Morrer de inanição é algo lento e torturante. Mas o pior é a fraqueza. Não há vontade de fazer nada. Só ficar deitado, semi-desperto, porque o estômago não te deixa dormir. E o ratinho continuava vindo. Não sei porquê, já que era mais do que sabido que não ganharia comida. Uma coisa curiosa é que ele ficava alguns segundos perto de mim e depois voltava pra sua toca. Comecei a pensar o que o ratinho faria depois que eu morresse. Talvez ele estivesse somente esperando isso pra começar a roer a minha carne. Ratinho sarnento maldito, não servirei de alimento pra um animal desse tipo.
Comecei a bolar um plano para evitar que isso acontecesse. Não veio nada na cabeça cheia de fome. Nessa hora ele apareceu e fez o que sempre fazia. Veio, ficou alguns segundos, mas dessa vez não voltou. Eu o agarrei com o resto de agilidade que tinha e mordi sua cabeça com os dentes saudáveis que me restava. Aquele gosto de pelo e sangue me enojou, mas acabei comendo todo o ratinho sarnento. Mastiguei o menos possível. Arranquei fora aquele rabo nojento dele. A fome passou. Uma saciedade que não sentia há anos me veio estômago acima. Até dormi uma noite tranquila.

A única. O corpo daquele animalzinho me deu fôlego pra mais uns dias de sofrimento. Mais uns dias sem comida, sem bebida, sem força, sem ânimo. E que saudade do ratinho.