domingo, 23 de março de 2014

Diários de um aluno e de um professor

Lembrei desse texto hoje na reunião do Invitro e resolvi postar. 

Aluno:
Querido diário, hoje a aula foi muito divertida. Logo no início eu tuitei pro Carlos e ele achou muito engraçado. Só que o professor não entendeu porque ele estava rindo tanto e mandou ele parar de rir. Nos olhamos e demos mais uma risadinha. Depois, copiei uma matéria que não entendi nada, mas disse que entendi pro professor passar logo pros exercícios. Também, nem prestei atenção na explicação. Sorte que não perguntou nada pra mim. :D Aí ele passou pra outra matéria. Essa eu entendi um pouco mais, se cair na prova acho que vou ir bem. Na hora dos exercícios, o Carlos me mandou uma mensagem no celular e eu respondi. A gente ta sempre trocando mensagem escondida. Depois na saída a gente foi cada um pra sua casa e conversamos no msn. Aí a mãe me chamou pra almoçar. Tinha strogonoff, estava muito bom! Vou lá jogar futebol, depois escrevo mais!”

Professor:
Hoje foi outro dia puxado na escola. Cheguei na turma e fiz a chamada. Pra variar, uma bagunça. Depois passei o calendário de provas no quadro. Alguns alunos pareciam nem saber do que se tratava. Mas parece que todos copiaram. Mais uma vez tive que chamar a atenção do Carlos. Esse menino tá sempre rindo sozinho, não sei do que ele ri tanto. Depois de fazer ele parar de rir e se aquietar na classe, passei uns exercícios sobre sujeito e núcleo do sujeito, pra fixar. Mas não sei se vou colocar na prova muitas questões sobre isso. Tem coisas que acho admirável nos meus alunos. O Carlos e o Rafael sentam em lados opostos da sala de aula, mas como se entendem! Um sempre sabe o que o outro está falando, mas pouco vejo eles juntos no recreio. Coisas de criança mesmo. No almoço, queria comer uma comidinha caseira leve, mas como tinha mais aulas de tarde, mais uma vez tive que ir no restaurante perto do colégio. Comida gordurosa! Ah, acabou meu tempo, já está na hora de voltar à escola.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Ponto de vista

Numa noite chuvosa e quente, ela estava no centro esperando o ônibus pra ir pra sua casa. A parada tinha poucas pessoas que estavam absortas em si mesmas. Ninguém conversava. Um escutava musica de cabeça baixa, outro estava apenas sentado no banco de ferro. Tinha uma que ficava cuidando os carros passar enquanto mexia em seu celular. Ela apenas observava. E pensava na vida.
Não demorou muito ali, logo o ônibus com direção ao Cassino chegou e parou. Ela foi a primeira a entrar, seguida da mulher que observava os carros e do guri que ouvia música. Passou a catraca após cumprimentar a cobradora e sentou-se à direita, uma fila antes da porta de saída. Achou a cara dela esquisita. Na verdade, todos os cobradores têm cara estranha, pensou ela.
O ônibus arrancou e logo na próxima parada já estacionou de novo. Entraram duas mulheres: "minha nossa, pra quê tanto vermelho?" "Eita cabelinho mais esquisito". Foram esses os pensamentos que teve sobre as duas novas passageiras, que sentaram-se nos primeiros lugares em filas separadas. Na sequência do caminho, outra parada e dessa vez entrou apenas um senhor, muito falante e cortês. Sentou-se no meio do ônibus à esquerda, nos bancos mais altos. Logo adiante, mais pessoas entraram. "que guri seco", "nossa, uma cara de louco desse aí", "cara de segunda voz de dupla sertaneja", "minha nossa, que criancinha feia, parece um joelho".
A cada pessoa que entrava, era um julgamento. Achava que estava na linha pro inferno, de tanta gente estranha e bizarra. Sentiu-se aliviada quando alguns desceram no trevo. "Daqui pra frente, só desce", pensou antes de dormir no trecho final do ônibus, quando restavam ainda uns vinte minutos até sua parada.
Ao chegar perto do seu destino, levanta-se e puxa a corda. O ônibus anda mais um pouco e para exatamente em frente ao abrigo. Ao abrir a porta, uma figura de pijama e pantufas desce o ônibus.