Era madrugada e ele estava em seu
quarto, quieto, lendo um livro que já tinha lido há muito tempo,
mas que resolvera ler novamente. Estava a fim de ler alguma coisa e
olhou pra sua prateleira cheia de livros lidos e alguns poucos ainda
não passados por seus olhos. Mesmo assim decidira-se por um
repetido, a história de um assassinato mal resolvido que dava várias
reviravoltas e tinha um final surpreendente. Não seria tão
surpreendente dessa vez, mas ele achou que valia a pena. Não queria
ler em sua cama, achava que cama era lugar para dormir ou para não
pensar em nada, nunca ler um livro ou fazer outra coisa. Então
resolveu ler sentado no chão, encostado na parede que estava um
pouco fria para suas costas quentes, o que foi resolvido rapidamente
com um travesseiro entre o que estava quente e o que estava frio.
Ficou até mais confortável. O frio e a dureza do chão não eram um
incômodo, mas dificilmente conseguiria ficar assim por muito tempo.
Então pegou o cobertor e colocou-o dobrado no chão e sentou-se em
cima. Pronto, agora sim podia ler em paz. Tinha lido uma meia-hora
quando ouviu alguma coisa do lado de fora de seu quarto, o que era
bem estranho, visto que morava sozinho em uma casa com três peças
somente. Seria algum animal nojento e peçonhento que teria sido
atraído pela louça suja que ele deixara na pia? A preguiça cobra
seu preço, pensou. O barulho parou e ele decidiu continuar sua
releitura. Apesar dos anos, o texto ainda mantinha-se fresco em sua
memória, o que foi uma surpresa.
Sempre fora um voraz leitor. Quando
novo, lia o que vinha pela frente, sem selecionar muito. Gibis,
revistas, jornais, folhetos publicitários. Tendo letra colada uma na
outra já era o bastante. Depois começou a escolher o que lia, porém
a avidez continuava. Ficou encantado com romances policiais, até
Agatha Christie deixar de ser um mistério para ele. Pulou então
para ficções científicas. E Asimov e F.P. Dick ficaram plausíveis
demais. Terror e suspense foram seus próximos alvos. Mas Poe e
Lovecraft não o assustaram por muito tempo. As distopias de Orwell e
Huxley não tiraram seu otimismo quanto ao futuro. Logo contos,
crônicas, poesias, poemas não o satisfaziam mais. Tinha uma fome
por leitura e ela não estava sendo devidamente saciada. Não se
interessava por não-ficção. Biografias, História, reportagens
nada disso o interessava. Gostava do que não existia, do que não
era real, pois a realidade, para ele, não valia a pena ser
aproveitada.
Não que sua vida fosse ruim, tinha
uma família comum, sem extravagâncias ou problemas graves. Os que
todas as famílias medianas têm. Conflito entre irmãos, discussão
entre os pais sobre tal assunto, fim de semana juntos em casa ou
viajando, cachorro, gato, papagaio. Sua vida era comum demais e a
literatura o tirava dessa rotina, dessa vida sem excentricidades.
Então, para suprir essa necessidade,
comprava qualquer livro que achasse que poderia saciar a sua fome. Um
dia, em um sebo, viu um livro com uma capa vermelha, com o título e
o nome do autor já gastos. Uma capa dura, de um vermelho sangue um
tanto coagulado pelo tempo. Estava jogado em meio a um monte de
outros livros velhos. Só o chamou a atenção porque estava
equilibrado de uma forma que poderia cair a qualquer momento. Pegou o
livro. Abriu-o para ler o título, mas estava faltando as páginas
iniciais. A história só começava no segundo capítulo. Leu algumas
linhas com dificuldade, pois as letras estavam um pouco apagadas e as
páginas, finas. Mesmo assim, decidiu comprá-lo. Mais por tédio do
que pelo interesse que a curta leitura lhe causou. De qualquer modo,
saiu barato o suficiente para não se arrepender de ter comprado
aquele livro velho sem título e sem começo. Ao chegar em casa, após
comer alguma coisa, sentou-se e pegou o livro para começar a ler.
Logo nas primeiras páginas do segundo capítulo, achou que tinha
desperdiçado seu dinheiro em algo muito ruim. Porém, a medida que
continuava, sentia uma compulsão por seguir adiante, sem parar.
Apesar das páginas desgastadas, leu os cinco primeiros capítulos
rapidamente, até que finalmente conseguira tirar os olhos daquelas
palavras encantadoras. O mais estranho é que continuava a achar a
história ruim, mas era como se precisasse ler até o final. Aquilo o
fez sentir-se entranho, pois nunca sentira essa compulsão antes. Não
obstante, gostou do que sentiu e decidiu voltar a ler. Leu mais
alguns capítulos e, sentindo sono, foi dormir. Dormira muito bem
dessa vez, algo um tanto raro nos últimos dias. Não sabia dizer
porque, já que sua rotina não tinha se alterado em nada nem havia
preocupações em excesso para lhe tirar o sono.

Acordara com fome, muita fome.
Levantou-se, fez sua higiene, correu para a cozinha e preparou
rapidamente três sanduíches enquanto o café era passado. Assim
como fez, comeu, e logo estava ele sentado no sofá, lendo o velho
livro sem título. Não teve muita dificuldade em conseguir ler dessa
vez, já que as letras estavam um pouco menos gastas neste trecho e
as páginas não estavam quase transparentes, como no início. Pelo
visto, o tempo ainda não tinha agido completamente sobre o livro e
acreditou que o seu miolo estaria completamente intacto, seguindo a
lógica até agora. Imaginou se conseguiria ler o final, mas não
quis olhar as ultimas folhas, já que odiava saber o fim das
histórias antecipadamente. Apesar da melhor qualidade do material,
já não lia com tanta velocidade, a história parecia estar ficando
mais densa, pesada; era necessária uma maior concentração e ele
gostava de desafios.
Ainda estava achando que era baixa
literatura e não entendia mais essa curiosidade que o compelia a
continuar lendo para saber o que vinha a seguir. Era como se
precisasse saber, como se sua mente necessitasse daquela leitura para
ficar tranquila. Após duas horas, não aguentou mais e parou,
cansado. Como o livro o cansava, pensou. Isso nunca acontecera antes.
Estava acostumado a ler um livro inteiro em um dia, ou uma noite.
Lia, quando podia, cerca de oito horas por dia e só não lia mais
porque a realidade sempre o chamava por algum motivo. Trabalho,
comida, limpeza, amigos(muito raros), família, que reclamava que
sempre lia demais e que os deixava de lado por causa dos malditos
livros. Principalmente seu pai, que mesmo sendo um leitor também,
não aceitava o fato do filho ter como único desejo, ler. Até mesmo
seu trabalho como ajudante na biblioteca era por vezes prejudicado
pela sua avidez. Por sorte tinha uma chefe compreensível.
Mas era feriadão e não tinha que se
preocupar com essas coisas. Após um breve descanso, voltou ao seu
novo desafio. Leu deitado dessa vez, já que estava um pouco
preguiçoso e preferiu ficar mais à vontade. Estava certo quanto ao
meio do livro, estava bem melhor conservado do que o início e agora
via muito claramente as letras negras e bem impressas numa página
grossa e alva. Nem amarelada nas pontas estavam. Recomeçou a leitura
daquele estranho texto, que já não lhe parecia tão ruim assim. A
medida que lia, sua opinião mudou de vez quando chegou exatamente na
metade do livro. Já achava uma estória incrível e fascinante. Não
queria mais largar e, mesmo sentindo-se cansado, resolveu continuar a
leitura. Iria chegar ao fim desse livro. Não parou mesmo quando seus
olhos estavam ardendo devido ao esforço. Seus braços pareciam mais
pesados que o corpo e o livro mais pesado que os braços. Sentia-se
cada vez mais cansado e fraco, mas não conseguia mais parar de ler e
nem queria. Sua teoria de que as páginas finais do livro estariam
gastas foi por terra quando viu que elas estavam até melhor que as
do meio. Foi quando percebeu que as páginas iniciais também estavam
assim e não entendeu quando viu que aquelas letras, antes apagadas,
agora estavam como novas. Ficou surpreso, mas não a ponto de largar
a leitura. Não interessava mais o estado do livro, ou o seu. Somente
chegar ao fim e descobrir o que acontecia no final dessa estória,
que já era por ele considerada como a melhor de todos os tempos.
Finalmente um livro que o completava, que o fazia esquecer a
realidade chata e comum.
Não se importava mais com o seu
estado cada vez pior, estava ficando mais fraco, mais magro, mais
cansado. Era como se o livro estivesse sugando toda a sua força, sua
saúde, sua vida. E a medida que lia, o livro ia ficando cada vez
mais renovado, mais viçoso. Estava nas últimas linhas e lia com uma
dificuldade imensa. Já não o segurava mais, estava deitado sobre o
livro, com a cabeça erguida o suficiente somente para conseguir ler
as palavras. Quase não enxergando mais, leu finalmente as últimas
palavras e, juntando suas últimas forças, fechou o livro, agora
totalmente renovado, de um vermelho-sangue recém liberto das veias.
E, no seu último olhar, percebeu o título, agora totalmente legível
em letras negras: “O Vampiro”, então sorriu e morreu.