sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A sina

Cansado. Era assim que se sentia. E realmente estava. O dia não tinha sido muito bom. Aliás, a semana toda estava uma merda. E ele não fazia nada pra mudar a situação. Mas o que poderia fazer? Estava cansado demais pra tentar alguma coisa. “Ânimo” diziam os companheiros. Mas eles próprios não pareciam estar. “Logo as coisas melhoram” previam os amigos, que também já pareciam cansados. Mas do desânimo dele. Não que ele não quisesse melhorar. Quem gosta de ficar desse jeito? Mas estava sem forças pra tentar algo, “É depressão” comentavam os vizinhos; “Não, só pode ser droga” retrucava outro, não muito simpático à pessoa em questão. “Ele já está há muito tempo assim.”
Era verdade. Fazia uns meses que Pedro perdera o ânimo (ou começara a se drogar, de acordo com aquele vizinho). O que era incomum para a época, pois era verão- mais exatamente início de ano. Quando ele ficava no auge do bom humor e disposição. Topava qualquer festa, onde quer que fosse. Gastava o seu décimo terceiro só presenteando os amigos, já que não tinha mais parentes próximos. Tinha um bom relacionamento com seu primo, mas este morava há dez anos fora do país, sabe-se lá onde, pois não parava muito tempo em um único lugar. “Ah, cara, não precisava” todos diziam. Porém já tinha virado costume receber um presente de Pedro no fim de ano, de modo que a escusa tornara-se mera formalidade. Não que ganhasse muito, possuía um salário normal de classe média. O seu trunfo era que programava muito bem suas despesas. Justamente para poder torrar o décimo com os seus amigos.
Pois foi justamente em dezembro que ele mudou. Ficara sério, carrancudo. Logo ele. Do cansaço, passara para o desinteresse. Estava um robô: trabalho, casa, trabalho, casa. E sem nada. Quando indagado sobre o porquê de estar assim, só balançava a cabeça, como uma criança envergonhada. Foram várias as tentativas dos amigos de reanimá-lo. Festas surpresas. Viagens nos finais de semanas, shows. Até garotas de programa foi tentado, já que Pedro era solteiro. Sempre foi. Namorava, mas por pouquíssimo tempo. Justificava que não dera certo. Sentia que sempre faltava algo. “É gay, só pode”, dizia algum amigo menos tolerante.
Cansados de verem o amigo tão por baixo, convocaram Lúcio, o mais próximo de Pedro, a tentar mais uma vez descobrir o motivo de tamanha depressão. O que afinal tinha esse homem que o deixava assim? Então lá se foi Lúcio à casa de Pedro. Tocou a campainha uma, duas vezes. Havia gente em casa, pois o carro estava na garagem. Eis que surge o residente, que abre a porta e vê quem é. Sem esboçar reação alguma, dá um leve suspiro e escancara a porta para Lúcio entrar.
A sala está meio desorganizada, mas nada fora dos padrões de Pedro, que nunca primara pela arrumação.
– Boa noite, Pedro.
– Oi.
Apertaram as mãos como sempre faziam. Pedro, já sabendo o motivo da visita, pediu à Lúcio que sentasse e saiu em direção ao quarto. Lúcio então, tirou o jornal do dia da poltrona e também um pequeno prato com farelo que estava embaixo do jornal, e sentou-se. Passaram alguns minutos desde que Pedro entrara no quarto e Lúcio já estava ficando curioso e inquieto. Quando decidiu-se por levantar e ver o que estava acontecendo, Pedro voltou com uma pequena caixa e um envelope à mão. Sem dizer nada, sentou-se no sofá em frente a poltrona onde Lúcio estava e entregou-lhe o envelope. Lúcio fitou os olhos de Pedro e entendeu que era pra abrir. Dentro, uma carta, com a letra de Pedro, endereçada justamente a Lúcio. Em silêncio, começou a ler:
“Caro Lúcio, esta carta já está escrita há algum tempo e tem por fim elucidar toda a dúvida que paira sobre a sua e do todas as cabeças dos nossos amigos. Está endereçado a você, pois sabia que seria o que mais tentaria descobrir o motivo do meu mau humor. Aqui tentarei explicar e espero que compreenda a razão do meu silêncio. Deve recordar o dia que voltei da viagem que tive que fazer por causa do serviço da firma. Lembra qual era meu destino? Uma cidade do interior, não muito grande, mas bem agradável. O serviço era pouco e de fácil resolução, apenas acertar alguns pontos e ver como nossos parceiros estavam se virando. Mas por uma infelicidade na agenda, tive que passar o fim de semana lá, pois ainda teria alguma coisa pra tratar segunda de manhã. Tudo bem, perdi a festinha sagrada que sempre fazemos, mas me senti bem naquela cidade, então não seria um grande sacrifício passar dois dias lá. Pois bem, à noite, meio de saco cheio de ver televisão no hotel, resolvi dar um passeio pelas ruas, conhecer um pouco o lugar. Caminhei por algumas mais movimentadas, outras um tanto desertas. Com a caminhada, veio a fome e eu procurei algum lugar pra comer. Com sorte, logo que virei uma esquina, achei um restaurante que parecia ser interessante. Entrei, esperei o garçom vir e pedi o cardápio. Não era dos piores, bem variado, até. Mas, fui no convencional, só pra garantir. Um dos meus pratos favoritos. Bife, ovo e batata frita, acompanhada de pouco arroz. Estava muito bom, porém comi demais e não me senti bem após a refeição. Comecei a caminhar em direção ao hotel, mas não lembrava mais pra que lado era. E aquela indigestão incomodando. As ruas eram muito parecidas e eu não conseguia me lembrar de algum ponto de referência. Já estava quase abrindo mão do meu orgulho e decidindo perguntar a alguém onde ficava o hotel, a indigestão, a azia colaboravam. Porém, antes, acabei entrando numa rua escura, na tentativa de cortar caminho. O engraçado é que eu nem sabia que caminho estava percorrendo, mas queria encurtá-lo de qualquer forma. Não tinha ninguém passando por essa rua, nenhuma luz vinha das casas, que pareciam formar dois paredões. Achei aquele lugar bem estranho e um pouco contraditório com o resto da cidade. Mas foi ali mesmo, nesse lugar, que eu não aguentei e acabei regurgitando o jantar. Droga de coisa desagradável! E na rua ainda! Estava praguejando a mim mesmo quando um senhor apareceu e me ofereceu ajuda. Muito gentil, ele. Perguntou se eu estava bem, se queria alguma coisa. E eu ali, ainda curvado, me recuperando. Ele tinha uma voz calma e serena, que foi completamente mudada quando eu ergui o corpo e pudemos nos olhar. A expressão daquele senhor era de medo, pavor de algo que não se consegue lutar contra e a única coisa é gritar. Ele não chegou a esse ponto, porém seu rosto perdera toda a cor. Parecia que tinha reconhecido em mim algo terrível. E seu tom comigo mudou. Perguntei a ele o que tinha acontecido pra ele ter me olhado assim. Ele apenas respirou fundo, recompôs-se e se lamentou. Quando eu perguntei por que estava se lamentando, se quem tinha que pedir desculpas era eu por estar fazendo aquele papelão, ele disse essas palavras que nunca esqueci: você veio até mim por alguma razão que desconheço, mas já que está aqui, tem que encarar o seu destino. O motivo não importa mais, eu não me preocupo mais com isso, somente quero que saiba que eu lamento muito, de verdade. E então ele pegou minhas mãos. Foi como um choque, um turbilhão de imagens, sensações, vozes, sons, tudo ao mesmo tempo que me deixaram como o senhor quando me viu. Pálido; catatônico. Eu chorei, ali mesmo. O senhor novamente se lamentou e foi embora, tão sutilmente quanto chegou. Fiquei ali parado naquela rua não sei quantos minutos até lembrar que tinha que voltar para o hotel, que achei sem dificuldades. Subi sem falar com ninguém. Entrei, sentei na cama, ainda atordoado com tudo que tinha acontecido. Lúcio, eu vi, eu senti. Eu vi o Carlos, o Deco, o Sílvio, o Luciano, a Roberta, a Marisa, a Deise, cada um. Eu os vi e senti o exato momento em que cada um morria. Todos os meus amigos mais queridos, todos os colegas que eu conheço, até mesmo quem eu mal falo, conhecidos e desconhecidos, morrendo! Mortes rápidas, indolores, outras tão lentas que chegavam a ser confortáveis. Voltar ao trabalho foi a coisa mais difícil pra mim, pois a cada encontro, cada pessoa que eu revia, sua morte surgia em minha mente. Repetidas vezes. Tentei contar ao Deco, antes de falar contigo, mas eu mal me aproximava dele e sua morte, violenta, vinha me assombrar. Não consegui falar com ninguém sobre isso, até pra não ser chamado de louco, o que decididamente não estou. Você deve estar totalmente incrédulo enquanto lê esta carta, eu posso imaginar. Provavelmente estou vendo a sua expressão de incredulidade, mas acredite amigo, é real. Estar com as pessoas era ver suas mortes repetidas vezes. Isso estava acabando comigo, perdi a vontade de fazer as coisas, de sair, não queria mais ver ninguém morrendo. Acho que isso explica o meu comportamento nesses últimos tempos.”
– Mas isso é um absurdo, Pedro! Não faz sentido nenhum! Essa era a explicação? Realmente é difícil de acreditar.
Lúcio estava desconcertado, realmente não esperava uma história dessas. Pedro, calado, só o olhava, com a expressão pesada de quem não pode fazer nada. Então o telefone de Lúcio tocou. E Pedro, como se já soubesse do que se tratava a ligação, somente sentou-se e pôs as mãos no rosto, conformado. A ligação era de um colega de trabalho de Pedro e Lúcio, totalmente em choque, contando que o prédio onde todos trabalhavam desabou devido a uma explosão. E que não havia sobreviventes.
Atônito, Lúcio vira-se em direção a Pedro, que o fita inexpressivamente.
– Pedro... Como... Como isso pode ter acontecido? Não é possível! Fala alguma coisa, porra!
– Termina a carta.
E Lúcio, mesmo incrédulo, retoma a leitura, do mesmo ponto onde parou.
“Mas o que me dói mesmo, o que eu não consigo tirar da minha cabeça e não consigo entender é que acontece agora, meu amigo. A essa altura já deve ter recebido uma ligação que confirma que as minhas visões estavam certas. Todos se foram, mas você está aqui, em pé na minha sala. Isso mostra que o futuro é certo e não temos como lutar contra, o livre arbítrio é uma piada do destino. O porquê de tudo isso parece não ter importância, somos brinquedos nas mãos do tempo. E eu não posso ir contra a maré, não tenho forças pra isso. Toda a minha vida, e a sua também, foram feitas, arquitetadas pra esse momento que se aproxima. O momento mais difícil da minha vida, pois a decisão que tomei (ou tomarei) acabará comigo para sempre. Mas creio que seja o melhor a ser feito. Não aguentarei ver novamente o que aconteceu com você. Dentre todos, Lúcio, a sua morte foi a mais cruel de todas para mim. Por favor, me perdoe e facilite as coisas. Não reaja.”
Ao chegar nesse trecho da carta, Lúcio levanta os olhos e vê Pedro, chorando,  com uma pistola na mão, apontando para seu peito. O barulho é percebido antes da dor do impacto, que é percebida depois da queda. Estupefato com o que aconteceu, Lúcio ainda tem forças para ver Pedro largar a arma, com os olhos escancarados e vazios, imóvel. Lúcio encosta a cabeça no chão e aguarda o escuro, que não vem. Põe a mão no peito e percebe que não há sangue, levanta a cabeça e olha pro peito onde uma marca roxa destaca-se atrás de um celular em pedaços, no bolso da camisa. Ao perceber que o que era pra ter acontecido não acontece, Pedro atira-se, incrédulo, ao sofá, sem saber o que pensar.
– Não entendo, eu, eu vi você morrer por um tiro meu! Eu matei você, Lúcio! Por que ainda está vivo?
– Cara! Não sei o que você viu, mas não foi o que aconteceu. Como pôde fazer isso??? É muita loucura pra um dia só, porra! No fim das contas, tive uma sorte incrível, mas não graças a você! Pedro, olha, eu não vou dar queixa, eu prometo. Mas nunca mais quero te ver, nem por perto. Saia da cidade, mude de estado, se possível. Por favor.
– Lúcio, alguma coisa deu errado, cara. Me escuta, não tá certo. Você deveria ter morrido com um tiro meu.
– E que merda de destino é esse em você decide atirar em mim? Quem te obrigou a isso, porra?
Então, como numa epifania tudo ficou claro para Pedro. Assim como acontecera com o velho no beco, estava acontecendo com ele agora. Sentiu alívio por saber que não seria o responsável pela morte de Lúcio e, mais ainda, por não ter ideia de como isso aconteceria, nem quando. Levantou do sofá, aproximou-se de Lúcio e pegou em suas mãos, ainda trêmulas pelo choque.
– Me perdoa, cara. Não tenho como explicar isso, mas agora, tudo ficará claro.
E quando as mãos se tocaram, como um golpe, imagens indefinidas e confusas tomaram conta da visão de Lúcio, que, tonto, caiu ao chão, paralisado. Quando suas mãos largaram as de Pedro, sentiu um peso enorme, como se estivesse carregando o segredo do mundo e permaneceu ali, imóvel, por um bom tempo. Pedro, ao contrário, sentira-se leve como há muito tempo não acontecia. Uma lágrima de libertação escorreu por seu rosto. Saiu em direção à porta, como se não importasse pra onde fosse. Não pensou em Lúcio ferido em seu apartamento, não pensou em seus colegas, não pensou. Apenas sorriu, como há muito tempo não sorria. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

ASTÊNICO – um curta-metragem de horror à favor da Mata Atlântica.


Equipe de artistas independentes lançam projeto de curta-metragem no financiamento coletivo (Catarse). “A proposta se iniciou da vontade de retratar a Mata Atlântica que ainda está no nosso quintal e alertar para os problemas ecológicos que chegam juntos com o ser humano nas reservas naturais. Buscamos um gênero que fosse apto a tocar em tabus e a conversar com o inconsciente humano. Assim, chegamos no horror.” Diz a diretora Paula Martins. Astênico é um curta-metragem independente e seu lançamento está previsto para outubro de 2015 acompanhando a temporada de Halloween. Este ano, a equipe de Astênico está produzindo festas no interior e em Porto Alegre; em Rio Grande a equipe estará no dia 14 de novembro na Zouk Cassino onde todos são convidados a virem fantasiados para comemorar o dia das bruxas. As arrecadações começaram no dia primeiro de outubro e vão até a meia-noite do dia primeiro de dezembro no site do Catarse. 
Para mais informações visite a página do filme: facebook.com/astenico

Recomendo!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Waves

By Rebeca Serafim

It comes and goes
Like waves
In the shore

They try to kiss the sand
But once they do it
They don't want it no more

The sea,
Free
The sand,
Safe

They meet
They leave
They clash
They break

The sand,
The sea
You
And me