segunda-feira, 24 de junho de 2013

Reunião

 Aos três mil, seiscentos e setenta e cinco dias do reinado do grande Zeus, nas folhas de número novecentos e cinquenta e novecentos e cinquenta e um, deu-se início a reunião olimpiana para tratar de assuntos mundanos e divinos. Primeiramente, foi feita a leitura da justificativa de ausência de grande Hades por um de seus lacaios. Grande Hades escusou-se pela falta devido a problemas de ordem pessoal no seu reino. Na missiva, o soberano do submundo informa que sua esposa Perséfone anda lamuriosa, causando alguns incômodos que não foram detalhados. Posto isso, foi declarada aceita a ausência de Hades e deu-se prosseguimento à reunião que teve como segundo tópico a situação do Titã Atlas. Este, que sustenta o mundo em suas costas, reclama de seu pesado fardo e solicita aos deuses um auxiliar. O pedido foi debatido e foram sugeridos os nomes de Héracles e Ares.
O primeiro teve seu nome rejeitado por já ter ludibriado o titã e não ter a simpatia desse. Já a opção segunda foi rejeitada pelo próprio deus, que considerou uma piada de mau gosto a hipótese de executar tal serviço. Ficou decidido, então, o não deferimento dessa solicitação. Como terceiro tópico, foi debatida a situação da guerra entre troianos e gregos. Devido a longa duração e equilíbrio entre as partes envolvidas foi aconselhado por grande Palas Atena um referendo para decidir quem deveria vencer a contenda. Foi feita a votação secreta, que teve como resultado um empate com seis votos cada lado. Devido a isso, grande Zeus, que tem o poder de desempate, decidiu por deixar a guerra correr por mais alguns anos até que seja feita completa análise sobre o tema. Houve uma curta discussão com a participação de todos os presentes, prontamente encerrada por uma trovejada de grande Zeus. Com a ordem devidamente restabelecida, grande Poseidon pediu a palavra para informar a todos os presentes que afundaria os navios de todos os mortais que se atrevessem a navegar em águas por ele governadas. Questionado por grande Hera o motivo de tal decisão, o grande deus das águas respondeu que não estão sendo feitas suficientes oferendas e orações. Todos os presentes consideraram justa a decisão, não havendo nenhuma ressalva à decisão do soberano do mundo aquático. Uma breve pausa foi realizada para que Hebe trouxesse ambrosia a todos e grande Dionísio, seu vinho. Tendo como efeito a embriaguez, decidiu-se por unanimidade dar por encerrada a reunião. Assinam os presentes Zeus, Hera, Ares, Poseidon, Palas Atena, Dionísio, Apolo, Ártemis, Hefesto, Afrodite, Deméter e este escriba, Hermes.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Acredite se quiser

 (Texto baseado na versão dos Irmãos Grimm para a fábula "Chapeuzinho Vermelho", de Charles Perrault. Na verdade, mais um exercício de escrita. Perdão pela falta de originalidade)




Sou uma senhora bem idosa. Meu marido já faleceu, faz dez longos anos. Meus filhos moram longe e nunca têm tempo pra me visitar. Quando têm, não querem. Sou muito sozinha aqui nesta casa. Felizmente minha neta vem me visitar frequentemente. Ah, eu adoro essa minha neta. Ela é filha da minha caçula, a única filha que ainda lembra de mim. Quando minha netinha vem me visitar, ela sempre traz pratos preparados pela minha filha. E como cozinha bem! São doces, pães, bolos, lasanhas... Meu estômago pede socorro às vezes. E ai eu durmo mal, mal. Mas não posso me queixar. Afinal, quem manda ser olho grande? Só que isso acontece com freqüência e, nos últimos dias tenho ficado acamada direto. A sorte que minha adorada netinha vem me trazer uns chás digestivos e quem sabe mais uns docinhos. Escondida da minha filha, claro! Minha netinha e eu somos muito próximas.
Ela vem hoje, mas está demorando um pouco pra chegar. No mínimo não seguiu os conselhos de sua mãe em vir direto, sem parar no caminho. É que ela mora um pouco longe e tem que passar por uma floresta que nem sempre é segura. Mas a minha netinha é muito geniosa e sempre fez o que quis. Essa minha netinha tem a quem puxar. Tenho pena da minha filha; duas pessoas teimosas pra cuidar. A minha neta e eu.
Essa teimosia nos colocou em perigo uma vez: estava eu aqui, deitada na minha caminha quando alguém bate a porta. Achei que era minha netinha, pois era dia de visita e ela costumava chegar nesse horário. Perguntei quem era antes de abrir. Uma voz parecida com a da minha neta falou para abrir a porta. Eu estranhei a voz, mas como ando meio surda resolvi abrir assim mesmo. Tomei um susto enorme! Um lobo grande e assustador invadiu a minha casa e tentou me comer! E conseguiu! Já sou muito velhinha, não tinha condições de correr e fui uma presa fácil para ele. Engoliu-me inteira, não sei como conseguiu. Passei por suas presas e garganta como se estivesse entrando num tobogã de água. Foi assustador. Tão assustador que desmaiei lá dentro! Enquanto isso, o lobo bandido se faz passar por mim pra devorar a minha netinha! Um horror! Quase bati as botas quando minha neta me contou, fiquei horrorizada. Ela me contou que estava vindo pra cá, mas esse lobo a convenceu a admirar a floresta, pois não precisava ter pressa. Quando ela chegou em minha casa, encontrou a porta aberta e foi entrando até chegar no meu quarto. E o lobo, lá, deitado esperando pra atacar.
Uma coisa que me deixou um pouco triste foi o fato de minha netinha não reconhecer o lobo! Ora, nunca fui muito bonita, mas não era horrenda como aquele lobo! Já fui, inclusive, rainha do baile! Só não lembro quando, faz um tempão já. Sou velha. Mas como ia dizendo, o lobo acabou por engolir minha netinha, também. Que lobo mais voraz! Ela caiu em cima de mim, me despertando. Estava quente e escuro ali dentro da barriga, mas não podíamos fazer nada, estávamos indefesas. Foi quando começamos a ouvir um barulho estranho. Parecia um ronco. E então, de repente, um pequeno fio de luz apareceu. Logo, o fio de luz deu lugar a um corte na barriga do lobo e quase pude ver lá fora, não fosse minha netinha bloquear a passagem com aquele chapeuzinho dela! O corte se abriu e minha netinha conseguiu sair, em lágrimas. Estava muito assustada, coitadinha. Então, eu também saí e vi o nosso salvador! Um lenhador grande e forte. Um pouco rude, mas charmoso também. Ah, me deu saudade do meu velho marido.
Bom, mas ai o caçador nos tirou e a minha netinha, vingativa como era, resolveu colocar umas pedras enormes dentro da barriga do lobo. O caçador costurou a barriga dele que, quando acordou e viu aquele homem enorme, tentou escapar, mas o peso das pedras não o deixou fugir. Estava tão pesada que ele caiu no chão e morreu. Ah, foi uma cena muito chocante, nunca vou esquecer.

Pra encerrar, o caçador tirou a pele do lobo para si e eu tomei o meu chazinho digestivo. E um calmante também, é claro. Minha netinha acabou aprendendo uma importante lição nesse dia. E eu passei a ser menos gulosa. Até emagreci! Graças àquele forte e valente caçador.