segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Roberta

– Ei, você.
– Hã? Quem é?
– Aqui.
– Q-quem é você?
– Um amigo. Vamos conversar.
– Mas como chegou até aqui?
– Isso não importa. Temos negócios a tratar.
– Negócios? Que negócios?
– Uma dívida.
– M-mas como assim? Eu nem o conheço, como posso estar devendo algo pra você?
– Mas eu te conheço. Muito bem.
– Olha, não sei como chegou até aqui, mas não tenho nada a tratar com o senhor.
– Roberta.
– Que disse?
– Você ouviu muito bem. Roberta.
– Eu não sei de quem você está falando.
– Ah, sabe sim. E eu sei também.
– E-eu não sei, juro. Por que está tão perto?
– Por que está assim? Está com medo?
– Não, é que...
– Vim cobrar a dívida. E não receberei um não como resposta.
– Eu não sei de que dívida você está falando.
– Uma dívida comigo. E com Roberta.
– Com ela? Eu não entendo...
– É por isso que estou aqui. Estou aqui para o teu bem. Vim te ajudar a resolver esse caso. E assim,
você me paga o que me deve. E aí, aceita?
– Vamos devagar, por favor. O que você sabe sobre a Roberta?
– Sei que ela te traiu. Mais de uma vez. E que ela destruiu a tua vida.
– Grande novidade, isso.
– Mas eu sei o verdadeiro motivo. E sei a injustiça que fizeram contigo. E o real motivo de você
estar aqui.
– Eu estou aqui porque fiz algo ruim.
– Não, você está aqui porque acham que você pode fazer algo ruim. Eles têm medo de você.
– Será?
– Confie em mim. Vamos nos vingar da Roberta, fazê-la sofrer tanto quanto você sofreu!
– Sim, seria uma boa... Mas como vamos fazer isso?
– Eu tenho um plano. Só precisamos passar por aquela janela.
– Mas ela está trancada, não é possível sair por ali.
– Você não está acreditando em si mesmo. Tente, você vai conseguir.
– Não sei porque estou confiando em você. Me parece familiar.
– Como eu disse, eu te conheço muito bem. Vamos, tente abrir essa janela. Vou cuidar a porta.
– Ok. Ta dífícil. Ta bem fechada. Você poderia-
– 2312! O que está fazendo nessa janela?
– Hã? E-eu... Nada, nada, enfermeiro. Eu, eu só estava conversando com o... cadê?
– Cadê o que, 2312? Saia dessa janela. Acho que tu tá precisando falar com o Dr Silvana.
– O doutor? Não, não, eu me comportarei, prometo, prometo!
– Bom. Tome, aqui está o seu medicamento da tarde. Isso, engula esse comprimido. Volto mais
tarde, 2312. Nada de ficar pendurado nessa janela, ouviu? Uma boa tarde pra você.
– B-boa tarde, enfermeiro. Roberta, cadê você, minha querida, cadê?

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Fuga

Estavam ali fazia dois dias naquele quarto de hospital escuro, bagunçado. A mesa cheia de objetos hospitalares usados, o chão um pouco pegajoso com algum líquido desconhecido. Uma pia com a cuba cheia d'água e um copo plástico do lado. Na cama, um homem perto dos seus sessenta anos, aparentando ter mais, deitado, semiconsciente. Em cima dele, uma coberta puída, suja, mas que ainda cumpria sua função. Sobre essa coberta, embalagens vazias de salgadinho e biscoito recheado, única coisa que conseguiram carregar até ali. A escuridão era por causa da janela que tinha sido obstruída com o armário de madeira que tinha no quarto. Dera trabalho ser arrastado até ao outro lado do quarto, mas compensara o esforço. Ninguém tentou entrar por ali. O fato de ser no terceiro andar ajudou um pouco, também. A lâmpada já estava queimada quando chegaram. A única luz que vinha era da lanterna de led, ligada há mais de meia hora. Provavelmente não duraria mais meia.
Tinha sido difícil para eles chegarem até ali, o mais velho estava fraco e precisava de cuidados médicos urgentes. O mais novo estava bem, mas o cansaço estava quase o vencendo, afinal já fazia dias que fugiam e o hospital pareceu um bom lugar pra se esconderem e se recuperarem. Conseguiram algumas horas de paz e biscoitos do refeitório. Até mesmo cochilaram. Porém não tardou para ouvirem sons de passos e ruídos, o que significava que os perseguidores estavam próximos dali. Perseguidores que pareciam não cansar nunca e sempre cada vez mais perto. Por um tempo, os dois homens conseguiram se impor perante a força dos perseguidores quando ainda eram um grupo com quase vinte pessoas. Após um bom período de vitórias, uma estratégia errada fez com que o grupo perdesse muitos membros e isso acabou fortalecendo quem eles combatiam. Sobrou, então, recuar. Uma, duas, três vezes. A cada fuga, a cada escapada, o grupo ia se reduzindo até deixar de ser um grupo e passar a ser uma dupla. Que estava desgastada pela interminável fuga e pela convivência, que deixava o ar mais pesado e o ambiente claustrofóbico, mesmo quando estavam ao ar livre. Não se suportavam mais, na verdade. Porém um precisava do outro, agora mais do que nunca. O mais velho tinha a paciência e o raciocínio rápido para escaparem dos perseguidores enquanto o mais novo tinha a vitalidade, a força e um bom conhecimento sobre quem os perseguiam. Até se davam bem no início, quando nenhum dos dois liderava o grupo. Mas quando o mais velho passou a tomar as decisões, houve um racha onde o principal opositor era o mais novo. Racha esse que durou somente até a fatídica noite em que decidiram emboscar um grupo de opositores que os perseguiam há dias. Quem acabou emboscado foi o grupo que fugia e a partir daí, a maré virou de lado.
Tinham chegado com muito esforço a esse hospital de uma pequena cidade que parecia deserta, abandonada às pressas. Ali, na cidade, conseguiram um pouco de provisão pra mais alguns dias e roupas novas, que as deles já estavam bem desgastadas e não mais os protegiam do frio da noite. A lanterna de led também foi um baita achado, evitava que tivessem que fazer uma fogueira. Mas quem os perseguiam eram rápidos e numerosos e quase os encontraram quando estavam justamente procurando por alguma arma para se defenderem. Felizmente, encontraram o hospital. Não podiam se deslocar com velocidade, pois o mais velho estava fraquejando devido à má alimentação e o esforço contínuo de manter-se sempre em movimento e em alerta. Trancaram todas as entradas que puderam encontrar do hospital e subiram ao andar mais alto, para o quarto mais distante da rua. Após um breve descanso e alimentação parca, encontraram-se novamente em alerta devido aos passos que podiam ser ouvidos ao longe, devido ao eco dos corredores.
Não tinham mais forças para fugir. Logo seriam encontrados e mortos sem piedade. Talvez até lentamente, coisa que já aconteceu com outros ex-companheiros. O mais velho, ao acordar e ver que o mais novo se encontrava encostado à parede, sentado com a cabeça baixa, resolve chamá-lo.
– Ei, guri, o que houve? Vai se entregar assim? Ainda podemos fazer algo.
– Claro, podemos abrir a porta e facilitar o serviço deles. Não temos mais pra onde escapar. Olha pra você! Tá que não se aguenta acordado, como pensa em fugir? Talvez ainda teríamos uma chance se tivesse me escutado! Talvez todos estariam vivos e poderíamos montar nossa resistência aqui, nessa cidade, em vez de atacá-los na floresta, que eles conhecem muito bem. Mas nãaao, sua arrogância foi a culpada por tudo isso!
– Olha, guri, eu já estou arrependido o suficiente pra tu ficar jogando isso na minha cara o tempo todo. Acha que não lamento a morte de todos? O meu erro? Eu vi uma oportunidade e acreditei no nosso potencial, no que tínhamos! Chega de ficar falando sobre isso. Não adianta mais nada, mesmo. Eu já estou com o pé na cova, mas tu ainda pode escapar. Tu ainda lembra o motivo de tudo isso? Ainda lembra porque estamos fugindo há tanto tempo e pra onde estamos indo? Lembra?
– Às vezes eu esqueço. Faz muito tempo que só o que fazemos é correr e se esconder e torcer pra não ser encontrado enquanto dormimos. E não sei mais se vale a pena. Nem sei mais se acredito que a Resistência exista. Estou cansado, velho, cansado de fugir sem parar.
– Guri idiota! Quem tinha que tá assim era eu, não tu! É por tua causa, pelo que TU sabe sobre esses malditos que estamos fugindo! Tu conseguiu informações importantes demais pra desistir agora. É a nossa esperança, caralho! A minha esperança! E tu não tem o direito de desistir! Tu tem que chegar até a Resistência...
Faltou ar. Tomou um pouco de fôlego e continuou:
– Me escuta, só mais essa vez.
– Do mesmo jeito que te escutei naquele dia?
– Só mais essa vez, porra! Olha... eu já estou morto, não vou conseguir fugir, além de estar te atrasando. Eu queria acreditar que conseguiria chegar até a Resistência, que sobreviveria pra ver esses desgraçados correrem da gente em vez de nós termos que fazer isso... espera, deixa eu pegar um ar... Tu ainda tem aquela granada?
– Tenho. Mas o combinado era usarmos somente quando estivéssemos em uma distância segura que não revelasse a nossa posição. Usar aqui não vai adiantar nada. Podem ser somente batedores que estão por perto.
– Tu acredita mesmo nisso? Olha, tu vai escapar pela janela, vai andar pela parede até a borda e vai usar aquela árvore pra descer. Eu sei que tu consegue, tu sempre foi bom nessas acrobacias. Leva o que restou de comida, eu seguro eles aqui. Vou explodir aqueles filhos da puta e te dar uma folga.
– Enlouqueceu, né? Isso não vai adiantar de nada, além de mostrar onde estamos. A gente já tá ferrado, velho imbecil, não vai funcionar.
– Faz o que eu tô dizendo, guri, tu nunca gostou de mim, não é agora que vai se preocupar com isso. Escuta, escuta! Eles estão vindo, tu tem poucos minutos pra fugir. Vai, porra!
E vendo a determinação do homem mais velho, o mais jovem junta o que restou de comida, coloca tudo na mochila e desobstrui a janela. Já com metade do corpo pra fora, uma ultima olhada para o velho, que agora estava em pé, mas quase sem conseguir se sustentar.
– Vai, guri, antes que eu não aguente e apague antes deles chegarem.
– Ei, Bob.
– Que é?
– Obrigado.
– Acha a Resistência, guri, tu consegue. Vai!

O velho agora se encontrava sozinho, se apoiando na cama, esperando o inevitável, que não tardou muito. Ao contrário do que o mais novo pensava, não eram somente batedores, mas cerca de cinquenta perseguidores preenchiam o corredor que dava acesso ao quarto. E quando a porta foi arrombada e foram rodeando sem pressa o velho, como se saboreassem a presa prestes a ser abatida, Bob apenas sorriu. E ouviu-se um pino caindo ao chão.