– Estou aliviado por finalmente
ter acabado. Aliviado, sim, mas também triste. Uma perda sempre
causa tristeza, do contrário, não seria perda. Creio, agora, que
finalmente seremos felizes. Eu serei, pelo menos. E espero,
sinceramente, que ele também seja. Afinal, estamos juntos nessa,
não?
Não sei como começou, mas eu
fui o responsável por terminar. Éramos felizes, somente eu e ele,
mas aí ela surgiu feito uma mancha na pele que há tempos está lá,
mas desapercebida, quieta, crescendo, até ser impossível não
notá-la com um ar de surpresa por não tê-la visto antes. Pois essa
mancha cresceu e virou algo mais, uma parte da gente, querendo tomar
o controle, dominar. E ele, cedendo cada vez mais espaço, eu cedendo
cada vez mais espaço. Maldita encantadora, era impossível resistir
às suas armas, sua beleza, seu magnetismo e presença. Tão forte.
Me sentia apagado, sumido, intangível na sua presença, mas, ao
mesmo tempo, colado a ela de uma maneira que pensar em se desvincular
seria algo inconcebível, antinatural.
Queríamos estar com ela. O tempo
todo, de todas as formas. Ir aonde ela ia, comer o que ela comia, ser
parte dela e ela da nossa. E nós éramos ela, mas ela não era nós.
Nunca cedeu um milímetro, um segundo, um grama. Estávamos à sua
mercê, para o que quer que fosse e sentíamos felizes com isso, ora
ele, ora eu.
Mas cedemos demais, eu cedi. Não
éramos mais nós e ela, era ela e ele, a todo momento. E ele,
impotente, seguindo-a pra onde quer que ela fosse, fazendo o que ela
decidisse fazer.
Ele, se apagando ao lado dela, como eu me apaguei
atrás deles. Ele, que antes era feliz e presente, independente,
comigo ao seu lado. Iguais. Não sobrou muito depois que ela tomou
conta de tudo, que passou a ser somente ela. Não tínhamos mais voz,
ele não tinha mais voz. Estávamos morrendo e, mesmo sabendo disso,
parecia que ele não se importava, não pensava mais em nada, era um
adorno no corpo dela. Vazio.
Mas eu, por ele, juntei todas as
forças que me restava e a enfrentei! Fui mais presente do que nunca
e quase morri pra salvá-lo, pra recuperar o brilho que sempre teve
quando estava ao meu lado. E até morreria mesmo, se fosse pra fazer
as coisas serem como antes, iguais.
Ela não cedia, não fraquejava,
e eu cambaleava apenas com sua voz. Não me entreguei e, tendo as
lembranças do passado feliz e glorioso que tinha ao lado dele, a
matei! Uma parte minha morreu com ela, uma parte dele morreu com ela.
Me senti vazio, inerte. Foi quando ele, agora menos apagado, se
ergueu não mais como um adorno, mas como uma presença viva, ainda
que fraco.
Senti que tinha o controle e
gostei disso, não me arrependo. E, inebriado pelo domínio que
exercia, a entendi, finalmente. Era impossível voltar ao que era
antes. Não seríamos iguais, nunca mais. Eu estava no controle e não
abriria mão por nada, nem por ele.
Sou feliz assim agora, ele também
será, tenho certeza. Não o tratarei como ela nos tratava, mas não
cederei o controle.
– Então você matou mesmo
Júlia. Eu preciso saber se ele ainda está ai, Wilson, se ele está
mesmo vivo. Jorge ainda está ai?
– Doutora, não confia em mim?


