sábado, 27 de agosto de 2016

Fabinho

Luciano Cáceres

Curioso é o mundo”, dizia Fabinho, assim mesmo, invertido. Mais por achar que “Curioso” seria o nome do mundo, do que um simples floreio na frase que ouvira em um filme de época na TV. Fabinho tinha uma peculiar forma de raciocínio, pensando sempre o que para nós seria impensável, ou interpretando as coisas de um modo que nunca interpretaríamos.
Para ele, o mundo era cheio de animais e coisas esquisitas. Um dia, distraído, lendo no sofá da sala, Fabinho ouviu sua mãe gritar e correu pro quarto pra saber o que era. “Umamosca”, disse ela, mais tranquila. E Fabinho ficou o dia inteiro imaginando o que poderia ser o tal de “umamosca”. Soava como um monstro alienígena de fala arrastada e boca pequena. Até fez um desenho e colocou na parede, na esperança de que um dia Umamosca aparecesse em seu quarto e se reconhecesse.
Outra vez, na escola, sua professora disse algo que intrigou Fabinho muitíssimo. Perguntada por um aluno por que ainda não viajamos no tempo (era aula de História), ela, dramaticamente, respondeu: “Há mais coisa entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.” O aluno não entendeu nada, mas adorou a resposta, assim como Fabinho, pois ele nunca tinha visto uma van filosofia, só a Topic e a Kombi, que o levava todo dia pra escola. Quis perguntar para a professora, mas ela estava tão empolgada explicando sua frase dramática ao colega, que não quis interrompê-la. Ao ir embora, no caminho para casa, ficou prestando atenção ao tráfego na tentativa de encontrar a tal van. Acabou tonto e desistiu.

Tantas coisas estranhas que ouvia e enchia sua pequena cabeça de dúvidas, que Fabinho um dia decidiu perguntar à pessoa mais sábia que ele conhecia no seu mundo Curioso. Sua avó, que passava os dias lendo e fazendo o que comer. Quando não estava lendo e comendo. Sua casa era cheia de livros pequenos e grandes, velhos e novos. O pai de Fabinho sentia uma inveja tremenda da boa vista da avó, já que ele usava óculos desde que Fabinho se lembra. Um óculos muito esquisito, na verdade, pois era “degrau”. Até hoje Fabinho não viu seu pai usando os óculos para alcançar alguma coisa, nem subindo em cima.
Pois foi Fabinho até a casa da sua avó, que não morava longe, para fazer-lhe as mais difíceis perguntas que ele tinha. Chegando lá, teve que tomar cuidado com um gato que sempre lhe assustava, pois era bravo e agressivo. Estava sempre na árvore da frente da casa da avó, espreitando quem passasse por ali. A avó dizia a Fabinho que ele era perigoso porque ele morava na rua e não era “do Méstico”. Fabinho ficou pensando que esse senhor deveria ser um excelente adestrador de animais.
Perguntou, então, Fabinho, suas perguntas. A avó, muito acostumada a perguntas de crianças curiosas, decidiu, antes de responder, alimentar não a mente, mas o corpo do seu neto. E fez um delicioso bolo de chocolate, o favorito de Fabinho. Enquanto Fabinho se lambuzava com o bolo, vó Amélia (era esse o nome dela) explicava tudo para ele. Mas de uma forma muito mais imaginativa e interessante do que um outro adulto poderia fazer. Explicou vó Amélia que as coisas podem ser sem graça ou interessantes, dependendo do modo em que as vemos, entre outras explicações não-explicativas. E assim saiu Fabinho, achando seu mundo muito mais doce e Curioso do que achava quando tinha entrado.

domingo, 21 de agosto de 2016

Onomástica

 
Daniella Domingos
 
Tenho certeza: o gato de casa virou galinha. Riiiiiiiinch

Observei alguns dias, vários na verdade. Aqueles olhos grandes e curiosos que seguiam qualquer sinal de insetos voadores até os agarrar e que brincava com eles até reduzi-los à exaustão, agora busca no chão por toda espécie de sementes, poeira, pedaços de alimentos derrubados pelos desastrados, cascas de pães e toda sorte de coisa que lhe sirva. Riiinch Agarra no bico, digo, boca, de gato, mas ele pensa que é bico e sai balançando a cabeça e o corpo no movimento esquizofrênico típico dessas aves. Riiiiiiiiiiinch

- Trim! (Treze horas e quatro minutos)

Sim, assim como as galinhas ele também acha que sabe voar, várias vezes surpreendi o bicho treinando pequenos pulos misturados com o agito das asas - patas e trocando o Riiinch, miado de gato por uma espécie rústica de cacarejo. Pra dormir é a mesma coisa, se empoleira em cima dos móveis mais altos e aí permanece até cedo da manhã, uma manobra dessas exigiu que abrisse mão de dormir no seu balaio, tão confortável que era, agora nem mesmo o olha, passa o dia de pé, andando e analisando o chão. Riiiiiinch

- Trim! (Treze horas e sete minutos)

Ora, eu sei que tenho a minha parcela de culpa, não foi correto batizar o gato com o nome de Frango, mas na época me pareceu uma divertida ironia do destino chamar um pobre gatinho assustado de 'Frango'. Riiiiiiiiinch Pareceu-me, assim, apenas um desses acasos que se encontra na vida, incapazes de produzir qualquer efeito ou mudança profunda onde quer que seja. Riinch Não pude imaginar que afetaria, a longo prazo, a personalidade do gato. Coitado! Reduzido de gato a galinha. Condenado a vestir a capa de um ser, ele sabe, não é condizente com a sua essência. Por fora gato, na essência, galinha. Riiinch

Li em um livro uma vez que o nome de cada um é a janela de sua alma, é o que ele quer, tornar-se galinha, jamais quis ser gato. É como dizem os budistas, a energia não tem forma, a sua energia é de ave, mas a sua forma é felina. Foi um infeliz incidente que a energia haja pousado no corpo errado. Riiiiiiiinch

- Trim! (Treze horas e doze minutos)


Ou até mesmo, pode ter sido da repetição, de tanto dizermos: "Frango, cadê você?", “Frango, olha a ração” ele creu em seu nome, na força que aí estava. E se transformou no que é hoje: um frango! Riiiiinch

Está vendo, doutor? É esse o meu problema, eu sou o único que nota que o gato virou galinha, que mudou de hábitos. O Frango tem alguma síndrome de identidade e é a mim que tratam feito louco. Riiiiiiiinch

- Trim! (Treze horas e quinze minutos) E na sua opinião, senhor Equino Fagundes, o que tem a ver a síndrome do seu animal de estimação com o seu próprio distúrbio de personalidade?

- Ora, do que o senhor está falando, doutor? Riiinch

- Dos seus hábitos peculiares, é por isso que estamos aqui. O senhor acredita ser um cavalo.

- Não posso compreender tal acusação. Riiiiiinch. Tanto mais vinda de um homem que age feito despertador, avisando com precisão a hora e os minutos.

- Isso eu tenho como explicar-lhe, senhor Equino, veja que não passa de um erro de digitação, Horácio por Horário é um erro humano, acontece, por outro lado um homem que acredita ser um cavalo...

Trim! (Treze horas e vinte e um minutos). O senhor tem mais 28 minutos e cinquenta e sete segundos.

Uma conversa com você

 
 Olá! Se você está lendo essa mensagem, é porque já deve estar ciente de algo mudou no blog, certo? Se não o conhecia antes, seja bem-vindo!

Aos leitores mais antigos, o blog Temporários e Duradouros não existe mais. Bem, mais ou menos. Vou explicar usando uma das febres do momento, o Pokémon Go. Quando captura-se um monstrinho, geralmente ele está em sua forma inicial, ou filhote (acho que o termo não se aplica bem aos pokémons, mas vamos lá). Após algum tempo, ao adquirir experiência, o pokémon evolui e se transforma em outro.

Pois foi o que aconteceu com o nosso blog, ele evoluiu. Ainda sou eu aqui atrás dessas palavras, mas agora não estou sozinho. Sim, somos uma equipe, um time agora, o time da Quinhentos e Cinquenta. E quem está no time? E o que é a Quinhentos e Cinquenta? Espero que esteja curiosa (o) sobre essas questões. Não farei suspense em responder, pois não me chamo João Kleber (ha ha).
Logo da Editora
Nosso logotipo

Comecemos pela equipe. Além deste que escreve, o blog está enriquecido com a “doce voz do Invitro” Dani Domingos, ou Dani Domns para a grande mídia, como ela gosta de ser chamada. Dani é escritora, tradutora, professora, revisora e mãe de gatinhos. Possui uma sensibilidade aguçada bastante presente em seus textos e uma imaginação fértil que lhe rende encantadoras histórias. É com ela que dividirei esse espaço chamado Quinhentos e Cinquenta.
 
E o que é isso, então? É o nosso projeto em conjunto, o nosso time. Aqui é o berço e voz da nossa editora, que tem como objetivo dar páginas e voz aos tradutores-escritores marginais, às mulheres, às minorias e a quem quiser fazer parte desse time que tem lugar pra todo mundo. É ou não uma senhora evolução? E tenho certeza que você que já frequentava o Temporários ou você que recém está chegando vai curtir bastante essa mudança. De qualquer forma, já agradecemos por estar aqui nos visitando. Por favor, volte quando quiser, a casa é sua!