terça-feira, 12 de agosto de 2014

Um dia no parque

“Ah, que belo dia pra passear no parque!” Ele disse. “Vai ser divertido, vamos!” Ele disse. Queria de todas as maneiras ir ao parque tomar chimarrão e ver o movimento. “Que coisa de gente velha!” Eu disse, mas ele não estava prestando muito atenção no que eu dizia. Então fomos, né? Que eu poderia ter feito? Me encerrado no banheiro? (Se bem que, pensando agora, poderia ter sido uma boa.) Fui com aquela cara de tacho, não disse quase nada durante a ida. Fiquei só escutando as músicas que tocavam. E ele dirigindo, feliz da vida.  Pro meu azar o trânsito estava bom e não levamos nem dez minutos pra chegar ao parque. Bem quando estava tocando uma das minhas favoritas. Por não ter ouvido até o final, fiquei com a maldita música na cabeça. “Mas você lembraaaaaaaa, você vai lembrar de mim...” o dia todo. Pra me animar, lembrei que tinha um vendedor que fazia um churros deliciosíssimo e gordurosíssimo. Azar da barriga, estava de mau-humor e não iria ficar sem um churros. Ou dois, quem sabe. Melhor número ímpar, então. Três churros na sequência. Impressionantemente, eu não consegui achar ele. Mas achei o vendedor de algodão-doce, o vendedor de rapadura, de refrigerante e salgadinhos. Continuei com vontade de churros.
“Que o nosso amor valeu a penaaaaaa, lembraaaaaaaa...” Continuava a música. Sentamos no gramado (úmido) ao sol e começamos a tomar chimarrão. Eu, sem dizer uma palavra, ele mais feliz que cachorro em dia de churrasco. Pra não dizer que foi só derrota esse dia, encontrei um amigo que há tempos não via. Conversamos por poucos minutos, mas aquilo me deu forças pra encarar o resto da manhã, que se arrastava. Era cachorro chato correndo na volta, criança chata pentelha atrás do cachorro chato, pais desesperados correndo atrás de criança pentelha correndo atrás de cachorro chato. E eu abstraindo tudo para sobreviver até o meio-dia, só esperando o almoço. Porém, antes de chegar a bendita hora, ele inventou de tirar algumas fotos. Claro que quem teria que fotografou tudo foi eu, enquanto ele posava na estátua do General Fulano Sem Nome e seu cavalo imponente, com o amigo que vê todos os dias, deitado na grama (úmida), e etc. Metade foi pro instagram. Nem metade teve curtidas, bem feito.
“É o nosso final feliz! Você vai lembraaaar, vai lembrar simmmmm...” a todo vapor na cabeça. Eu estava realmente de mau humor desde que tinha aberto os olhos e nem sabia direito porquê. O dia estava realmente bonito, ele tinha razão. Não comi churros, mas me empanturrei de outros doces que gosto tanto quanto, os cachorros e as crianças e os pais das crianças até que não estavam tão insuportáveis, mas eu estava. E na hora do almoço, quando até ele já estava querendo ficar de mau humor, eu pedi desculpas por estar naquele jeito. Ele, como que notando, facilitou pra mim e disse que estava tudo bem, que se quisesse iríamos pra casa, sem problemas. Eu já estava me sentindo melhor e falei que não era necessário, que poderíamos ficar mais um pouco.
Depois do almoço, nos deitamos no gramado (agora seco) pra comermos umas bergamotas e lagartearmos um pouco ao sol. Acabei cochilando e sonhando com o Tedy Corrêa cantando aquela música que insistia em não desgrudar. Acabaria deixando de gostar dela assim. Nesse meio tempo, se foi quase uma hora. Fomos dar uma volta pelos camelôs, só pra olhar mesmo, já que quase nunca tem algo que me interesse. Ele gastou cinquenta reais em bugigangas. Porta celular de super-herói, quadro de disco de vinil, escultura de arame. Coisa incomum da parte dele, devia ser o ótimo humor.
“Esse foi um beijo de despedida, que se dá uma vez só na vida...” E fomos embora do parque. Meu humor até que já estava quase em níveis aceitáveis. A barriga é que estava fora dos limites toleráveis, mas eu iria compensar nos outros dias, com certeza. Um pouco de excesso de vez em quando não faz mal a ninguém. Ao  chegarmos em casa, novamente eu pedi desculpas pela péssima companhia que fui. E ele tão adorável, o tempo todo. Estava em um dia em que nada me agradava e tudo era problema. Liguei a tv pra ver se me distraía um pouco, mas logo desisti. Domingo não há uma coisa que preste. Fui pro facebook e não ajudou em nada. Saí tão logo entrei. Ao fim do jantar leve, pois já estava estourando pela comilança do dia, enquanto tirava a louça para lavar (não era a minha vez, mas tinha que fazer algo pra compensar a má companhia), ele veio e parou ao meu lado. Sério, compenetrado. Eu perguntei o motivo e ele disse que precisava contar algo. Larguei o prato sujo e fiquei escutando ele contar  do tempo todo  que passamos juntos, dos momentos que tivemos, das viagens, etc. Meu coração começou a bater acelerado, sem saber o que pensar. Foi quando ele disse a temível frase: “temos que terminar”. Aquilo foi como uma gota de detergente em uma louça com gordura. Me desfiz do mesmo jeito. Toda a calma e paciência comigo hoje foi uma preparação para esse evento, para a revelação do fim do dia. Explicou que eu mudara muito nos últimos tempos e que ele não me reconhecia mais. Não como amante, pelo menos. Mas que não queria terminar com briga, se possível. Era uma decisão tomada que não tinha mais volta. Não adiantou eu argumentar, gritar, socar a parede ou ameaçá-lo com uma faca suja. Calmamente, saiu da cozinha e foi em direção ao quarto pegar uma mochila, que já estava com algumas roupas. Saiu pela porta, dizendo que era melhor para nós dois. Só pensei em uma coisa, nesse momento: “Mas você lembraaaaaaa, você vai lembrar de mim. Que nosso amor valeu a penaaa...”

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dez reais

Dedicado a Lise Peres.
Baseado em fatos reais. 

Marla estava desempregada e a bolsa que ganhava mal dava pra sustentar o santo café de cada dia do bar da universidade. Fazia alguns bicos em bares, mas ultimamente era só ensaios. Os shows garantidos estavam no futuro e suas necessidades, no presente. Tudo bem, dá-se um jeito, dizia. Seus pais ajudavam. De vez em quando. Por isso aquelas saídas com os amigos estavam resumidas a tomar um mate na praça, pois era baratinho e sempre divertido. Nem na época das vacas gordas deixou de fazer isso.  Estar com seus amigos era sagrado para ela.
Falando em amigos, eles seguidamente davam uma mãozinha para Marla, que agradecia toda sorrisos e abraços, característica sua. Para eles, a mãozinha estava mais do que paga. Às vezes, pois ninguém ali era rico. Além do mais, não dava pra ficar sem o café de antes da aula. O do pós era dispensável, porém fazia falta. Foi no café pós aula que Marla se despediu deles e rumou para sua casa, distante dois ônibus da universidade. Seu cartão do ônibus, felizmente tinha ainda o suficiente para o retorno e Marla pôde chegar ao seu bairro sem percalços. Porém da parada, ainda tinha que caminhar algumas quadras para finalmente poder chegar em casa e se atirar na cama. Por tédio, decidiu fazer um caminho diferente e dobrou uma rua antes que a rota usual. Estava distraída com seu telefone, quando, fortuitamente, encontra uma nota de dez reais. Quase não acreditando no que via, abaixou-se e pegou-a, que era real, aliás. Antes de colocar no bolso, já pensando no fim que daria à ela, viu que tinha alguma coisa escrita. Afff, sempre tem um simpatia, pensou. Mas o que leu a deixou intrigada, parecia que era diretamente para ela. Desconfiada, olhou para os lados para ver se não tinha caído em alguma brincadeira de seus amigos. Nenhum deles por perto. Dez reais não se acha todo dia, e, pelo sim, pelo não, resolveu guardar o tesouro no bolso.
No outro dia, quando precisou ir pegar o ônibus para ir para o centro fazer uma série de coisas, passou por aquela rua novamente. E surpresa! Outra nota de dez reais no mesmo lugar que ontem. Aquilo não era possível, era demais para uma pessoa só. Ainda mais ela, rainha da falta de sorte. Novamente não perdeu a oportunidade de ficar dez reais menos pobre. Porém, ao ter a nota em suas mãos percebeu que dizia a mesma coisa que a outra. Puxou a carteira da mochila para conferir e viu que a nota não mais estava lá. Marla não estava entendendo nada. Só podia ser sacanagem de alguém. Como que foi arquitetado esse plano mirabolante era secundário. O que importava é que não podia crer que a nota saíra de sua carteira para aquela rua. Pela segunda vez, guardou os dez reais e seguiu seu rumo. Foi e voltou para casa, sem passar por aquela rua dessa vez. E sem gastar os dez reais, milagrosamente.
Fim de semana chegou e agora poderia tomar uma cerveja com o pessoal. Na verdade, sempre tomava, mas agora poderia participar da conta, pois Marla tinha sua honra e precisava zelar por ela. Ao fim da noite, já na hora da divisão dos custos, foi pegar o dinheiro e viu que não estava mais ali. Definitivamente estava se irritando com aquela situação. Como isso era possível? Impulsionada pela bebida, talvez, pensou em correr para aquela rua e ver se a nota estava lá. Apenas pensou, pois, no primeiro impulso, suas pernas não obedeceram e Marla quase caiu na frente do bar. Estava um pouco alterada, já. Riu, como sempre faz em situações como essa, e pediu desculpas por não poder dividir a conta novamente. Ao ir embora para casa, teve que passar por aquela rua. Não conseguiria dormir sem saber se a nota estava ali ou não. E estava mesmo! Riu alto na rua. Um gato que estava por ali saiu em disparada. Era uma brincadeira, sim. Mas do destino, com certeza. Só pra não deixar dúvidas, verificou se tinha algo escrito na nota. Como suspeitava, a mesma frase: “Sempre estarei aqui, sempre sua.”