quinta-feira, 15 de maio de 2014

Banho

Mas já é hora de levantar? Acho que vou ficar mais uns cinco minutos deitada, não tô com pressa mesmo. Não, vou levantar e tomar um banho bem demorado pra passar a preguiça. E depois dar aquelas voltas que tenho que fazer.  Bah, já faz uma semana que tô nessa enrolação, hoje é sexta e não vou enrolar mais.E tem aquele almoço ainda... Deu. Cadê meu chinelo...? Um dia eu descubro como eu faço isso, se toda a noite eu tiro os chinelos na beira da cama, já. Caralho, que frio que tá! O banho vai ser bem demorado mesmo, que coisa boa! Vou colocar aquela blusinha azul finalmente, não via a hora de esfriar pra isso.
Que chão gelado dos infernos! Tenho que pôr algum tapete nesse banheiro. Talvez eu faça isso hoje, mesmo. Vou la naquela lojinha cheia de cacarecos perto do calçadão, quem sabe eu ache algum que preste. Ah, saco, tenho que ir na mãe também. Merda, merda, estragou minha manhã. Justo agora que as coisas estavam indo bem comigo, que eu não tenho chorado mais. Bem que... por que não sai água dessa porcaria de chuveiro? AH NÃO! Só o que falta não ter água! MERDAAAA! Vou ter que botar a roupa de novo?? Nossa, essa calcinha tá velha, minha nossa! Droga, Droga, droga.
Cadê o telefone, cadê o telefone... Nunca acho no meio dessa quantidade de lençol, tenho que aprender a deixar em cima da cômoda, não dormir com ele em cima da cama. ACHEI! Bateria quase acabando... ê, dia que começou lindo, esse! Vai seu Clóvis, atende ai, por favor... Vamos, vamos... Ah, Oi, seu Clóvis!... Sim, é por isso mesmo que liguei, é que... Sério??? Mas eu não posso ficar sem meu banho, seu Clóvis!... Eu entendo mas... Ok, ok, seu Clóvis, que vou fazer, eu espero, né? De qualquer forma, obrigado... Um bom dia pro senhor também.
Tô ferrada, como vou sair de casa sem o meu banho, sem ajeitar essa juba? Pedir ajuda pra algum vizinho não vai adiantar, estão na mesma merda que eu. E depois, nem iriam me ajudar mesmo. Bando de imbecil, que só sabem me olhar torto e com cara de quem viu e não gostou. Odeio todos eles. Aquele véio Walmor Volmir Volmar, porra, nunca sei o nome dele, do andar de cima, então, eu quase vomito quando passo por ele. Asqueroso nojento. A Jé! Não, ela não posou na casa dela, provavelmente. Não recebi nenhuma mensagem no whats ainda. A Silvia nem pensar, odeio o banheiro da casa dela, cheio de coisinhas. Não, cara, não acredito que vou ter que apelar pra mãe, justo ela, pô! Mal consigo falar com ela, imagina ir lá tomar banho! Não, não, não. Não. Não quero ir lá. Mas como vou ficar sem tomar banho? Meu dia não começa sem banho. Mania dos infernos!
Depois de tudo que ela fez quando o pai foi embora, aquelas brigas, birras. Tá certo que o pai foi um filho da puta, mas a gente não tinha culpa! Pobre da Quinha, a mais perdida. Também, ela tinha só 15 anos, que época mais infeliz essa adolescência, minha nossa. E a mãe botando pressão pra ir morar com ela, que absurdo aquilo. Eu não aguentei, tive que sair de casa. Não iria morar com nenhum deles. Sorte achar esse apê. Mas hoje tô amaldiçoando esse prédio maldito cheio de gente idiota que só sabe falar mal de mim pelas costas! QUE MORRAAAAAAMMMM! To nem aí se vão ouvir, merda.
Deixa eu ver se já voltou... Puta merda, ainda não. Não vou ligar pra mãe, não vou! To pouco me lixando se ela reclama que eu nunca vou visitar ela, que é só dez minutos a pé, que blá, blá, blá. Só fala merda e depois vem me encher o saco. Ainda botou a Quinha contra mim, aquela infeliz. Pelo menos ela tá fazendo a facul dela. Se não tivesse dado todo esse rolo, ela poderia estar fazendo aqui, não em Santa Maria. Hoje de noite vou ligar pra ela, pra ver como ela tá. Se ela me atender também, né?
Aaah, eu quero o meu banho! Já to a quase meia hora aqui, ratiando e não decidi nada ainda. Droga, ligo ou não ligo? Saco!! Se eu não tivesse esse negócio pra fazer hoje, nem sairia de casa, mas não posso deixar de ir, senão vou me queimar com o Ricardo e aí se foi a chance de ir embora daqui. Não posso perder esse emprego. Ah, azar! A mãe que me aguente hoje.

Droga, perdi o telefone de novo. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Conselho Florestal


Havia na floresta um grupo chamado Conselho Florestal, formado por vários animais, cada um com o seu representante. Eram debatidos assuntos florestais tais como território de cada espécie, contendas entre animais, distribuição de comida, entre outros assuntos da fauna. O Conselho tinha um líder, que era eleito anualmente e, nesse ano, o líder era um gato-do-mato chamado Matoso, que fora eleito para suceder um veado campestre chamado Saul. Saul tinha feito um bom governo, com o apoio da maioria dos outros animais pertencentes do conselho. Um dos seus grandes feitos fora apaziguar a briga entre bem-te-vis e canários, que disputavam uma antiga árvore, excelente pra cantar e fazer ninhos. A batalha musical era ensurdecedora e Saul resolveu o problema dividindo a árvore entre as duas espécies de aves canoras. Se, após seis meses, não houvesse harmonia, as duas teriam que procurar outra árvore.
Por essas e outras, havia grande expectativa sobre o novo governo. Pois, de acordo com as regras florestais, quem governou, não pode governar mais e Matoso ainda era muito jovem. Tinha feito, porém, grande fama ao ser eleito, pelos gatos-do-mato, o representante da espécie no conselho. Após adentrar ao grupo, sempre participava das reuniões com grande interesse e era um dos primeiros a botar a mão na massa. Foi ganhando a simpatia de vários integrantes do conselho, porém alguns animais, ainda não o viam com bons olhos. Um desses era uma cobra jiboia chamada Gina, que achava que Matoso era jovem e inexperiente demais para a função. Apesar do apoio dos macacos e dos jabutis, Gina, não conseguira convencer o resto do conselho.
Certo dia, então, Gina foi conversar pessoalmente com Matoso e explicou que só queria o bem da floresta e que não levasse o ocorrido para o lado particular. Além disso, Gina convidou Matoso para um chá em sua casa, para selar definitivamente a amizade entre os dois. E também, discutir futuras pautas para a reunião do conselho. Matoso não se sentiu à vontade frente a esse convite e achou que Gina poderia estar mentindo, mas aceitou mesmo assim, pois quis dar um voto de confiança à sua companheira de conselho. Afinal, não é por não serem amigos que tenham que ser inimigos, pensou. Com a data do chá marcado, foi ter uma conversa com sua amiga coruja Leninha, que o aconselhou a dar um voto de confiança à jiboia, pois assim, poderia ser ainda mais influente no conselho, caso realmente se entendesse com ela. Leninha era muito respeitada por Matoso, porém esse ainda assim, não se sentia confiante sobre o chá. Foi conversar então com a raposa Mozo, seu amigo de caçadas. Assim como Leninha, Mozo também aconselhou Matoso a dar uma chance à Gina, pois nem todos são o que parecem. O gato-do-mato aceitou com ressalvas o conselho da raposa, mas não quis dizer isso ao amigo. Dirigiu-se, então, à casa da Jiboia Gina para o chá reconciliatório.
Ao chegar, Gina o estava esperando na frente de sua casa, uma toca entre duas enormes árvores velhas. Um pouco escura, mas aconchegante. Matoso entrou, com sua orelhas girando pra todos os lados e olhos bem abertos. Foram com esses olhos bem abertos que viu uma bonita mesa posta bem no meio da toca cheia das mais variadas iguarias. E uma jarra de leite fresco chamava a atenção, pois leite era considerado um alimento caro na floresta. Gina pediu a Matoso que sentasse e se servisse. Ela, como cobra, não era muito afeita a laticínios e ficou somente nos biscoitos. Já Matoso, embora desconfiado, tomou toda a jarra. Enquanto bebiam e comiam, conversaram bastante sobre o conselho e a vida na floresta. Apesar de toda a hospitalidade e amabilidade, Matoso continuava desconfiando de Gina, que percebeu o que estava acontecendo.
A jiboia ficou magoada com tão grande desconfiança e falta de créditos que tinha perante o novo chefe do conselho e fez um discurso emocionante sobre colocar os interesses comuns à frente dos particulares e disse que perdoava o tratamento dado a ela, visto que Matoso ainda era muito jovem e tinha tanta coisa pra aprender. Após esse discurso, o gato-do-mato se sentiu arrependido por não confiar na cobra e pediu sinceras desculpas. Além disso, prometeu ouví-la mais nas reuniões do conselho, visto que ela era uma das mais experientes conselheiras. Ao chegar até a porta, na hora da despedida, Matoso deu um fraterno abraço em Gina, que retribuiu. Retribuiu com tanta vontade, que começou a apertar Matoso a ponto do gato não conseguir respirar direito. Gina o envolveu com seu corpo enorme e sufocou Matoso até este não respirar mais e cair sem vida ao chão. Após isso, Gina abriu sua enorme boca e engoliu Matoso inteiro, que desceu sem resistência pela garganta profunda da jiboia. Gina fechou a porta da sua casa e voltou à mesa. Dessa vez pra tomar um chá digestivo, pois pelos sempre lhe davam azias.

Moral da história: Confie sempre nos seus instintos. Nunca saberemos quando uma cobra dará o seu bote.

Ou, se conselho fosse bom, se vendia.