segunda-feira, 17 de março de 2014

Ponto de vista

Numa noite chuvosa e quente, ela estava no centro esperando o ônibus pra ir pra sua casa. A parada tinha poucas pessoas que estavam absortas em si mesmas. Ninguém conversava. Um escutava musica de cabeça baixa, outro estava apenas sentado no banco de ferro. Tinha uma que ficava cuidando os carros passar enquanto mexia em seu celular. Ela apenas observava. E pensava na vida.
Não demorou muito ali, logo o ônibus com direção ao Cassino chegou e parou. Ela foi a primeira a entrar, seguida da mulher que observava os carros e do guri que ouvia música. Passou a catraca após cumprimentar a cobradora e sentou-se à direita, uma fila antes da porta de saída. Achou a cara dela esquisita. Na verdade, todos os cobradores têm cara estranha, pensou ela.
O ônibus arrancou e logo na próxima parada já estacionou de novo. Entraram duas mulheres: "minha nossa, pra quê tanto vermelho?" "Eita cabelinho mais esquisito". Foram esses os pensamentos que teve sobre as duas novas passageiras, que sentaram-se nos primeiros lugares em filas separadas. Na sequência do caminho, outra parada e dessa vez entrou apenas um senhor, muito falante e cortês. Sentou-se no meio do ônibus à esquerda, nos bancos mais altos. Logo adiante, mais pessoas entraram. "que guri seco", "nossa, uma cara de louco desse aí", "cara de segunda voz de dupla sertaneja", "minha nossa, que criancinha feia, parece um joelho".
A cada pessoa que entrava, era um julgamento. Achava que estava na linha pro inferno, de tanta gente estranha e bizarra. Sentiu-se aliviada quando alguns desceram no trevo. "Daqui pra frente, só desce", pensou antes de dormir no trecho final do ônibus, quando restavam ainda uns vinte minutos até sua parada.
Ao chegar perto do seu destino, levanta-se e puxa a corda. O ônibus anda mais um pouco e para exatamente em frente ao abrigo. Ao abrir a porta, uma figura de pijama e pantufas desce o ônibus.

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