sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Conselho Florestal


Havia na floresta um grupo chamado Conselho Florestal, formado por vários animais, cada um com o seu representante. Eram debatidos assuntos florestais tais como território de cada espécie, contendas entre animais, distribuição de comida, entre outros assuntos da fauna. O Conselho tinha um líder, que era eleito anualmente e, nesse ano, o líder era um gato-do-mato chamado Matoso, que fora eleito para suceder um veado campestre chamado Saul. Saul tinha feito um bom governo, com o apoio da maioria dos outros animais pertencentes do conselho. Um dos seus grandes feitos fora apaziguar a briga entre bem-te-vis e canários, que disputavam uma antiga árvore, excelente pra cantar e fazer ninhos. A batalha musical era ensurdecedora e Saul resolveu o problema dividindo a árvore entre as duas espécies de aves canoras. Se, após seis meses, não houvesse harmonia, as duas teriam que procurar outra árvore.
Por essas e outras, havia grande expectativa sobre o novo governo. Pois, de acordo com as regras florestais, quem governou, não pode governar mais e Matoso ainda era muito jovem. Tinha feito, porém, grande fama ao ser eleito, pelos gatos-do-mato, o representante da espécie no conselho. Após adentrar ao grupo, sempre participava das reuniões com grande interesse e era um dos primeiros a botar a mão na massa. Foi ganhando a simpatia de vários integrantes do conselho, porém alguns animais, ainda não o viam com bons olhos. Um desses era uma cobra jiboia chamada Gina, que achava que Matoso era jovem e inexperiente demais para a função. Apesar do apoio dos macacos e dos jabutis, Gina, não conseguira convencer o resto do conselho.
Certo dia, então, Gina foi conversar pessoalmente com Matoso e explicou que só queria o bem da floresta e que não levasse o ocorrido para o lado particular. Além disso, Gina convidou Matoso para um chá em sua casa, para selar definitivamente a amizade entre os dois. E também, discutir futuras pautas para a reunião do conselho. Matoso não se sentiu à vontade frente a esse convite e achou que Gina poderia estar mentindo, mas aceitou mesmo assim, pois quis dar um voto de confiança à sua companheira de conselho. Afinal, não é por não serem amigos que tenham que ser inimigos, pensou. Com a data do chá marcado, foi ter uma conversa com sua amiga coruja Leninha, que o aconselhou a dar um voto de confiança à jiboia, pois assim, poderia ser ainda mais influente no conselho, caso realmente se entendesse com ela. Leninha era muito respeitada por Matoso, porém esse ainda assim, não se sentia confiante sobre o chá. Foi conversar então com a raposa Mozo, seu amigo de caçadas. Assim como Leninha, Mozo também aconselhou Matoso a dar uma chance à Gina, pois nem todos são o que parecem. O gato-do-mato aceitou com ressalvas o conselho da raposa, mas não quis dizer isso ao amigo. Dirigiu-se, então, à casa da Jiboia Gina para o chá reconciliatório.
Ao chegar, Gina o estava esperando na frente de sua casa, uma toca entre duas enormes árvores velhas. Um pouco escura, mas aconchegante. Matoso entrou, com sua orelhas girando pra todos os lados e olhos bem abertos. Foram com esses olhos bem abertos que viu uma bonita mesa posta bem no meio da toca cheia das mais variadas iguarias. E uma jarra de leite fresco chamava a atenção, pois leite era considerado um alimento caro na floresta. Gina pediu a Matoso que sentasse e se servisse. Ela, como cobra, não era muito afeita a laticínios e ficou somente nos biscoitos. Já Matoso, embora desconfiado, tomou toda a jarra. Enquanto bebiam e comiam, conversaram bastante sobre o conselho e a vida na floresta. Apesar de toda a hospitalidade e amabilidade, Matoso continuava desconfiando de Gina, que percebeu o que estava acontecendo.
A jiboia ficou magoada com tão grande desconfiança e falta de créditos que tinha perante o novo chefe do conselho e fez um discurso emocionante sobre colocar os interesses comuns à frente dos particulares e disse que perdoava o tratamento dado a ela, visto que Matoso ainda era muito jovem e tinha tanta coisa pra aprender. Após esse discurso, o gato-do-mato se sentiu arrependido por não confiar na cobra e pediu sinceras desculpas. Além disso, prometeu ouví-la mais nas reuniões do conselho, visto que ela era uma das mais experientes conselheiras. Ao chegar até a porta, na hora da despedida, Matoso deu um fraterno abraço em Gina, que retribuiu. Retribuiu com tanta vontade, que começou a apertar Matoso a ponto do gato não conseguir respirar direito. Gina o envolveu com seu corpo enorme e sufocou Matoso até este não respirar mais e cair sem vida ao chão. Após isso, Gina abriu sua enorme boca e engoliu Matoso inteiro, que desceu sem resistência pela garganta profunda da jiboia. Gina fechou a porta da sua casa e voltou à mesa. Dessa vez pra tomar um chá digestivo, pois pelos sempre lhe davam azias.

Moral da história: Confie sempre nos seus instintos. Nunca saberemos quando uma cobra dará o seu bote.

Ou, se conselho fosse bom, se vendia.  

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