Havia na floresta um grupo chamado Conselho Florestal, formado por
vários animais, cada um com o seu representante. Eram debatidos
assuntos florestais tais como território de cada espécie, contendas
entre animais, distribuição de comida, entre outros assuntos da
fauna. O Conselho tinha um líder, que era eleito anualmente e, nesse
ano, o líder era um gato-do-mato chamado Matoso, que fora eleito
para suceder um veado campestre chamado Saul. Saul tinha feito um bom
governo, com o apoio da maioria dos outros animais pertencentes do
conselho. Um dos seus grandes feitos fora apaziguar a briga entre
bem-te-vis e canários, que disputavam uma antiga árvore, excelente
pra cantar e fazer ninhos. A batalha musical era ensurdecedora e Saul
resolveu o problema dividindo a árvore entre as duas espécies de
aves canoras. Se, após seis meses, não houvesse harmonia, as duas
teriam que procurar outra árvore.
Por essas e outras, havia grande expectativa sobre o novo governo.
Pois, de acordo com as regras florestais, quem governou, não pode
governar mais e Matoso ainda era muito jovem. Tinha feito, porém,
grande fama ao ser eleito, pelos gatos-do-mato, o representante da
espécie no conselho. Após adentrar ao grupo, sempre participava das
reuniões com grande interesse e era um dos primeiros a botar a mão
na massa. Foi ganhando a simpatia de vários integrantes do conselho,
porém alguns animais, ainda não o viam com bons olhos. Um desses
era uma cobra jiboia chamada Gina, que achava que Matoso era jovem e
inexperiente demais para a função. Apesar do apoio dos macacos e
dos jabutis, Gina, não conseguira convencer o resto do conselho.
Certo dia, então, Gina foi conversar pessoalmente com Matoso e
explicou que só queria o bem da floresta e que não levasse o
ocorrido para o lado particular. Além disso, Gina convidou Matoso
para um chá em sua casa, para selar definitivamente a amizade entre
os dois. E também, discutir futuras pautas para a reunião do
conselho. Matoso não se sentiu à vontade frente a esse convite e
achou que Gina poderia estar mentindo, mas aceitou mesmo assim, pois
quis dar um voto de confiança à sua companheira de conselho.
Afinal, não é por não serem amigos que tenham que ser inimigos,
pensou. Com a data do chá marcado, foi ter uma conversa com sua
amiga coruja Leninha, que o aconselhou a dar um voto de confiança à
jiboia, pois assim, poderia ser ainda mais influente no conselho,
caso realmente se entendesse com ela. Leninha era muito respeitada
por Matoso, porém esse ainda assim, não se sentia confiante sobre o
chá. Foi conversar então com a raposa Mozo, seu amigo de caçadas.
Assim como Leninha, Mozo também aconselhou Matoso a dar uma chance à
Gina, pois nem todos são o que parecem. O gato-do-mato aceitou com
ressalvas o conselho da raposa, mas não quis dizer isso ao amigo.
Dirigiu-se, então, à casa da Jiboia Gina para o chá
reconciliatório.
Ao chegar, Gina o estava esperando na frente de sua casa, uma toca
entre duas enormes árvores velhas. Um pouco escura, mas
aconchegante. Matoso entrou, com sua orelhas girando pra todos os
lados e olhos bem abertos. Foram com esses olhos bem abertos que viu
uma bonita mesa posta bem no meio da toca cheia das mais variadas
iguarias. E uma jarra de leite fresco chamava a atenção, pois leite
era considerado um alimento caro na floresta. Gina pediu a Matoso que
sentasse e se servisse. Ela, como cobra, não era muito afeita a
laticínios e ficou somente nos biscoitos. Já Matoso, embora
desconfiado, tomou toda a jarra. Enquanto bebiam e comiam,
conversaram bastante sobre o conselho e a vida na floresta. Apesar de
toda a hospitalidade e amabilidade, Matoso continuava desconfiando de
Gina, que percebeu o que estava acontecendo.
A jiboia ficou magoada com tão grande desconfiança e falta de
créditos que tinha perante o novo chefe do conselho e fez um
discurso emocionante sobre colocar os interesses comuns à frente dos
particulares e disse que perdoava o tratamento dado a ela, visto que
Matoso ainda era muito jovem e tinha tanta coisa pra aprender. Após
esse discurso, o gato-do-mato se sentiu arrependido por não confiar
na cobra e pediu sinceras desculpas. Além disso, prometeu ouví-la
mais nas reuniões do conselho, visto que ela era uma das mais
experientes conselheiras. Ao chegar até a porta, na hora da
despedida, Matoso deu um fraterno abraço em Gina, que retribuiu.
Retribuiu com tanta vontade, que começou a apertar Matoso a ponto do
gato não conseguir respirar direito. Gina o envolveu com seu corpo
enorme e sufocou Matoso até este não respirar mais e cair sem vida
ao chão. Após isso, Gina abriu sua enorme boca e engoliu Matoso
inteiro, que desceu sem resistência pela garganta profunda da
jiboia. Gina fechou a porta da sua casa e voltou à mesa. Dessa vez
pra tomar um chá digestivo, pois pelos sempre lhe davam azias.
Moral da história: Confie sempre nos seus instintos. Nunca saberemos
quando uma cobra dará o seu bote.
Ou, se conselho fosse bom, se vendia.

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