segunda-feira, 16 de junho de 2014

No sábado


Eu estava sentada em frente ao PC, porque lá em casa não tem televisão,  quando bateram na porta. Interromperam meu filme predileto! Fiquei puta da cara, porque era justo em uma das cenas que eu mais gosto. Fiquei ouvindo aquelas batidas, curtindo o ritmo delas. Tinha tomado umas coisas muito loucas, então não estava muito no meu perfeito juízo. Aquelas batidas, a cena do filme, estava tudo muito louco de repente e eu comecei a ficar excitada com tudo isso. Até deu vontade de dizer: “Bate mais forte que eu tô gozando!”, mas não estava tãao louca a esse ponto. Normalmente sou uma menina pudica, não fico falando essas coisas por aí.  Aí também já decidi ver quem era que não parava de bater na minha porta. Que pessoa insistente! Levantei e espiei pelo olho mágico. Melhor não tivesse olhado, era minha vizinha, que acha que é minha mãe. Dei uma bufada estilo Patrícia Poeta e abri a porta. Ela já veio querendo me dar três beijinhos. Pra que tanto beijinho, pô? Dei dois e deixei o bico dela catando borboleta no terceiro.  “Ooooooi, amadinha, tudo bem? Trouxe algumas coisinhas da feira pra ti, já que tu não para em casa, né? Nem deve ter tempo de ir ao super. Não sei se tu gosta, mas eu comprei um quilo de maça gala, daquelas bem enceradinhas. Se quiser, te dou metade, já que o Juca não gosta muito dessas. Ele prefere aquelas castelhanas, isoporzentas. Horrorosas! Não tá com frio, minha filha, só com essa roupinha?”
Só nessa frase, minha paciência foi à lona e estava queimando ela pelo olhar. Uma abelha que voava perto da bromélia da entrada cruzou meu campo de visão. A abelha morreu carbonizada. Mas a dona Silvinha continuava firme como o abdôme do Hugh Jackman e não parava de falar. Comecei a ficar com pena do seu Juca, marido dessa criatura há mais de vinte anos. Imaginei ele sentado, vendo algum esporte na tv e a dona Silvinha falando das caturritas das árvores. Por vinte anos.
  Quando o via, com aquela cara de resignado, imagino que o seu maior desejo seria perder a memória e esquecer quem ele era, para que pudesse se tornar outra pessoa, livre da dona Silvinha. Pobre dona Silvinha, é gente boa, se preocupa comigo. Mais do que a minha mãe, inclusive. Mas é inconveniente e tagarela, o que me irrita um pouco. Ou muito, né? Mas ela sempre me traz alguma comida, que admito, me faz falta. Ainda mais nesse inverno, que mal tenho vontade de sair da cama, imagina ir ao mercado? E no frio eu não paro de comer. E ela não para de trazer comida. Esses dias me trouxe um pote de feijão. “Ainda bem que o feijão coube no pote de sorvete, filha. Senão teria que te trazer a panela toda, né?” E ria. Sempre ria depois de um “né”. O que era engraçado.  Mas aí ela estava lá falando  e eu viajando na maionese, nem prestando atenção ao que ela disse, quando ela decide me mostrar uma outra coisa que trouxe. Não era comida.
“Olha, minha filha, vocês jovens ficam tanto na frente desses computadores que nem devem ler nada, né?” (risos) “Capaz, dona Silvia, eu tenho um monte de coisa da facul pra ler.”Era só o que me faltava, agora além da minha nutrição, ela começar a se preocupar com minha formação intelectual.  Eu já estava pra fechar a porta na cara dela, dando a desculpa que estava louca pra ir ao banheiro e não aguentava mais segurar, quando ela mostrou um livrinho antigo, que parecia um diário. “Eu tenho esse diário há quase trinta anos, minha filha. Aqui eu escrevi todas as coisas que sentia, que via e que imaginava, em forma de poemas. São coisas bobas, mas eu não tenho pra quem dar e o Juca não gosta de poesia, aquele tapado. Então queria dar pra ti, minha filha. Porque tu sempre foi muito boa comigo. Eu chamo ele de ‘Clube das Letras’. Porque parece um amontoado de criancinhas brincando no parquinho, né? (risos).” Aí eu me desarmei. Abracei o Clube de Letras e quase chorei. A chata e inconveniente dona Silvinha tinha desaparecido e se transformado em uma senhora que se preocupa com o próximo. Nesse momento, o efeito de qualquer viagem passou, o fogo dos olhos se esfriou e a paciência, que estava quase nocauteada, levantou-se como Rocky Balboa e deu um gancho de direita nos queixos da má-vontade. Então desliguei o pc e convidei a dona Silvinha pra entrar. 

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