Eu estava sentada em frente ao PC, porque lá em casa
não tem televisão, quando bateram na
porta. Interromperam meu filme predileto! Fiquei puta da cara, porque era justo
em uma das cenas que eu mais gosto. Fiquei ouvindo aquelas batidas, curtindo o
ritmo delas. Tinha tomado umas coisas muito loucas, então não estava muito no
meu perfeito juízo. Aquelas batidas, a cena do filme, estava tudo muito louco
de repente e eu comecei a ficar excitada com tudo isso. Até deu vontade de
dizer: “Bate mais forte que eu tô gozando!”, mas não estava tãao louca a esse
ponto. Normalmente sou uma menina pudica, não fico falando essas coisas por
aí. Aí também já decidi ver quem era que
não parava de bater na minha porta. Que pessoa insistente! Levantei e espiei
pelo olho mágico. Melhor não tivesse olhado, era minha vizinha, que acha que é
minha mãe. Dei uma bufada estilo Patrícia Poeta e abri a porta. Ela já veio
querendo me dar três beijinhos. Pra que tanto beijinho, pô? Dei dois e deixei o
bico dela catando borboleta no terceiro.
“Ooooooi, amadinha, tudo bem? Trouxe algumas coisinhas da feira pra ti,
já que tu não para em casa, né? Nem deve ter tempo de ir ao super. Não sei se
tu gosta, mas eu comprei um quilo de maça gala, daquelas bem enceradinhas. Se
quiser, te dou metade, já que o Juca não gosta muito dessas. Ele prefere
aquelas castelhanas, isoporzentas. Horrorosas! Não tá com frio, minha filha, só
com essa roupinha?”
Só nessa frase, minha paciência foi à lona e estava
queimando ela pelo olhar. Uma abelha que voava perto da bromélia da entrada
cruzou meu campo de visão. A abelha morreu carbonizada. Mas a dona Silvinha
continuava firme como o abdôme do Hugh Jackman e não parava de falar. Comecei a
ficar com pena do seu Juca, marido dessa criatura há mais de vinte anos.
Imaginei ele sentado, vendo algum esporte na tv e a dona Silvinha falando das
caturritas das árvores. Por vinte anos.
Quando o via, com aquela cara de resignado, imagino que o seu maior
desejo seria perder a memória e esquecer quem ele era, para que pudesse se
tornar outra pessoa, livre da dona Silvinha. Pobre dona Silvinha, é gente boa,
se preocupa comigo. Mais do que a minha mãe, inclusive. Mas é inconveniente e
tagarela, o que me irrita um pouco. Ou muito, né? Mas ela sempre me traz alguma
comida, que admito, me faz falta. Ainda mais nesse inverno, que mal tenho
vontade de sair da cama, imagina ir ao mercado? E no frio eu não paro de comer.
E ela não para de trazer comida. Esses dias me trouxe um pote de feijão. “Ainda
bem que o feijão coube no pote de sorvete, filha. Senão teria que te trazer a
panela toda, né?” E ria. Sempre ria depois de um “né”. O que era
engraçado. Mas aí ela estava lá
falando e eu viajando na maionese, nem
prestando atenção ao que ela disse, quando ela decide me mostrar uma outra
coisa que trouxe. Não era comida.
“Olha, minha filha, vocês jovens ficam tanto na frente
desses computadores que nem devem ler nada, né?” (risos) “Capaz, dona Silvia,
eu tenho um monte de coisa da facul pra ler.”Era só o que me faltava, agora
além da minha nutrição, ela começar a se preocupar com minha formação
intelectual. Eu já estava pra fechar a
porta na cara dela, dando a desculpa que estava louca pra ir ao banheiro e não
aguentava mais segurar, quando ela mostrou um livrinho antigo, que parecia um
diário. “Eu tenho esse diário há quase trinta anos, minha filha. Aqui eu
escrevi todas as coisas que sentia, que via e que imaginava, em forma de
poemas. São coisas bobas, mas eu não tenho pra quem dar e o Juca não gosta de
poesia, aquele tapado. Então queria dar pra ti, minha filha. Porque tu sempre
foi muito boa comigo. Eu chamo ele de ‘Clube das Letras’. Porque parece um
amontoado de criancinhas brincando no parquinho, né? (risos).” Aí eu me
desarmei. Abracei o Clube de Letras e quase chorei. A chata e inconveniente
dona Silvinha tinha desaparecido e se transformado em uma senhora que se
preocupa com o próximo. Nesse momento, o efeito de qualquer viagem passou, o
fogo dos olhos se esfriou e a paciência, que estava quase nocauteada,
levantou-se como Rocky Balboa e deu um gancho de direita nos queixos da
má-vontade. Então desliguei o pc e convidei a dona Silvinha pra entrar.

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