Cansado. Era
assim que se sentia. E realmente estava. O dia não tinha sido muito bom. Aliás,
a semana toda estava uma merda. E ele não fazia nada pra mudar a situação. Mas
o que poderia fazer? Estava cansado demais pra tentar alguma coisa. “Ânimo” diziam
os companheiros. Mas eles próprios não pareciam estar. “Logo as coisas
melhoram” previam os amigos, que também já pareciam cansados. Mas do desânimo
dele. Não que ele não quisesse melhorar. Quem gosta de ficar desse jeito? Mas
estava sem forças pra tentar algo, “É depressão” comentavam os vizinhos; “Não,
só pode ser droga” retrucava outro, não muito simpático à pessoa em questão.
“Ele já está há muito tempo assim.”
Era verdade.
Fazia uns meses que Pedro perdera o ânimo (ou começara a se drogar, de acordo
com aquele vizinho). O que era incomum para a época, pois era verão- mais
exatamente início de ano. Quando ele ficava no auge do bom humor e disposição.
Topava qualquer festa, onde quer que fosse. Gastava o seu décimo terceiro só
presenteando os amigos, já que não tinha mais parentes próximos. Tinha um bom
relacionamento com seu primo, mas este morava há dez anos fora do país, sabe-se
lá onde, pois não parava muito tempo em um único lugar. “Ah, cara, não
precisava” todos diziam. Porém já tinha virado costume receber um presente de
Pedro no fim de ano, de modo que a escusa tornara-se mera formalidade. Não que
ganhasse muito, possuía um salário normal de classe média. O seu trunfo era que
programava muito bem suas despesas. Justamente para poder torrar o décimo com
os seus amigos.
Pois foi
justamente em dezembro que ele mudou. Ficara sério, carrancudo. Logo ele. Do
cansaço, passara para o desinteresse. Estava um robô: trabalho, casa, trabalho,
casa. E sem nada. Quando indagado sobre o porquê de estar assim, só balançava a
cabeça, como uma criança envergonhada. Foram várias as tentativas dos amigos de
reanimá-lo. Festas surpresas. Viagens nos finais de semanas, shows. Até garotas
de programa foi tentado, já que Pedro era solteiro. Sempre foi. Namorava, mas por
pouquíssimo tempo. Justificava que não dera certo. Sentia que sempre faltava
algo. “É gay, só pode”, dizia algum amigo menos tolerante.
Cansados de
verem o amigo tão por baixo, convocaram Lúcio, o mais próximo de Pedro, a
tentar mais uma vez descobrir o motivo de tamanha depressão. O que afinal tinha
esse homem que o deixava assim? Então lá se foi Lúcio à casa de Pedro. Tocou a
campainha uma, duas vezes. Havia gente em casa, pois o carro estava na garagem.
Eis que surge o residente, que abre a porta e vê quem é. Sem esboçar reação
alguma, dá um leve suspiro e escancara a porta para Lúcio entrar.
A sala está
meio desorganizada, mas nada fora dos padrões de Pedro, que nunca primara pela
arrumação.
– Boa noite,
Pedro.
– Oi.
Apertaram as
mãos como sempre faziam. Pedro, já sabendo o motivo da visita, pediu à Lúcio
que sentasse e saiu em direção ao quarto. Lúcio então, tirou o jornal do dia da
poltrona e também um pequeno prato com farelo que estava embaixo do jornal, e
sentou-se. Passaram alguns minutos desde que Pedro entrara no quarto e Lúcio já
estava ficando curioso e inquieto. Quando decidiu-se por levantar e ver o que
estava acontecendo, Pedro voltou com uma pequena caixa e um envelope à mão. Sem
dizer nada, sentou-se no sofá em frente a poltrona onde Lúcio estava e
entregou-lhe o envelope. Lúcio fitou os olhos de Pedro e entendeu que era pra
abrir. Dentro, uma carta, com a letra de Pedro, endereçada justamente a Lúcio.
Em silêncio, começou a ler:
“Caro Lúcio,
esta carta já está escrita há algum tempo e tem por fim elucidar toda a dúvida
que paira sobre a sua e do todas as cabeças dos nossos amigos. Está endereçado
a você, pois sabia que seria o que mais tentaria descobrir o motivo do meu mau
humor. Aqui tentarei explicar e espero que compreenda a razão do meu silêncio.
Deve recordar o dia que voltei da viagem que tive que fazer por causa do
serviço da firma. Lembra qual era meu destino? Uma cidade do interior, não
muito grande, mas bem agradável. O serviço era pouco e de fácil resolução,
apenas acertar alguns pontos e ver como nossos parceiros estavam se virando.
Mas por uma infelicidade na agenda, tive que passar o fim de semana lá, pois
ainda teria alguma coisa pra tratar segunda de manhã. Tudo bem, perdi a
festinha sagrada que sempre fazemos, mas me senti bem naquela cidade, então não
seria um grande sacrifício passar dois dias lá. Pois bem, à noite, meio de saco
cheio de ver televisão no hotel, resolvi dar um passeio pelas ruas, conhecer um
pouco o lugar. Caminhei por algumas mais movimentadas, outras um tanto
desertas. Com a caminhada, veio a fome e eu procurei algum lugar pra comer. Com
sorte, logo que virei uma esquina, achei um restaurante que parecia ser
interessante. Entrei, esperei o garçom vir e pedi o cardápio. Não era dos
piores, bem variado, até. Mas, fui no convencional, só pra garantir. Um dos
meus pratos favoritos. Bife, ovo e batata frita, acompanhada de pouco arroz.
Estava muito bom, porém comi demais e não me senti bem após a refeição. Comecei
a caminhar em direção ao hotel, mas não lembrava mais pra que lado era. E
aquela indigestão incomodando. As ruas eram muito parecidas e eu não conseguia
me lembrar de algum ponto de referência. Já estava quase abrindo mão do meu
orgulho e decidindo perguntar a alguém onde ficava o hotel, a indigestão, a
azia colaboravam. Porém, antes, acabei entrando numa rua escura, na tentativa
de cortar caminho. O engraçado é que eu nem sabia que caminho estava
percorrendo, mas queria encurtá-lo de qualquer forma. Não tinha ninguém
passando por essa rua, nenhuma luz vinha das casas, que pareciam formar dois
paredões. Achei aquele lugar bem estranho e um pouco contraditório com o resto
da cidade. Mas foi ali mesmo, nesse lugar, que eu não aguentei e acabei
regurgitando o jantar. Droga de coisa desagradável! E na rua ainda! Estava
praguejando a mim mesmo quando um senhor apareceu e me ofereceu ajuda. Muito
gentil, ele. Perguntou se eu estava bem, se queria alguma coisa. E eu ali,
ainda curvado, me recuperando. Ele tinha uma voz calma e serena, que foi
completamente mudada quando eu ergui o corpo e pudemos nos olhar. A expressão
daquele senhor era de medo, pavor de algo que não se consegue lutar contra e a
única coisa é gritar. Ele não chegou a esse ponto, porém seu rosto perdera toda
a cor. Parecia que tinha reconhecido em mim algo terrível. E seu tom comigo
mudou. Perguntei a ele o que tinha acontecido pra ele ter me olhado assim. Ele
apenas respirou fundo, recompôs-se e se lamentou. Quando eu perguntei por que
estava se lamentando, se quem tinha que pedir desculpas era eu por estar
fazendo aquele papelão, ele disse essas palavras que nunca esqueci: você veio
até mim por alguma razão que desconheço, mas já que está aqui, tem que encarar
o seu destino. O motivo não importa mais, eu não me preocupo mais com isso,
somente quero que saiba que eu lamento muito, de verdade. E então ele pegou
minhas mãos. Foi como um choque, um turbilhão de imagens, sensações, vozes,
sons, tudo ao mesmo tempo que me deixaram como o senhor quando me viu. Pálido;
catatônico. Eu chorei, ali mesmo. O senhor novamente se lamentou e foi embora,
tão sutilmente quanto chegou. Fiquei ali parado naquela rua não sei quantos
minutos até lembrar que tinha que voltar para o hotel, que achei sem
dificuldades. Subi sem falar com ninguém. Entrei, sentei na cama, ainda
atordoado com tudo que tinha acontecido. Lúcio, eu vi, eu senti. Eu vi o
Carlos, o Deco, o Sílvio, o Luciano, a Roberta, a Marisa, a Deise, cada um. Eu
os vi e senti o exato momento em que cada um morria. Todos os meus amigos mais
queridos, todos os colegas que eu conheço, até mesmo quem eu mal falo,
conhecidos e desconhecidos, morrendo! Mortes rápidas, indolores, outras tão
lentas que chegavam a ser confortáveis. Voltar ao trabalho foi a coisa mais
difícil pra mim, pois a cada encontro, cada pessoa que eu revia, sua morte
surgia em minha mente. Repetidas vezes. Tentei contar ao Deco, antes de falar
contigo, mas eu mal me aproximava dele e sua morte, violenta, vinha me
assombrar. Não consegui falar com ninguém sobre isso, até pra não ser chamado
de louco, o que decididamente não estou. Você deve estar totalmente incrédulo
enquanto lê esta carta, eu posso imaginar. Provavelmente estou vendo a sua
expressão de incredulidade, mas acredite amigo, é real. Estar com as pessoas
era ver suas mortes repetidas vezes. Isso estava acabando comigo, perdi a
vontade de fazer as coisas, de sair, não queria mais ver ninguém morrendo. Acho
que isso explica o meu comportamento nesses últimos tempos.”
– Mas isso é
um absurdo, Pedro! Não faz sentido nenhum! Essa era a explicação? Realmente é
difícil de acreditar.
Lúcio estava
desconcertado, realmente não esperava uma história dessas. Pedro, calado, só o
olhava, com a expressão pesada de quem não pode fazer nada. Então o telefone de
Lúcio tocou. E Pedro, como se já soubesse do que se tratava a ligação, somente
sentou-se e pôs as mãos no rosto, conformado. A ligação era de um colega de
trabalho de Pedro e Lúcio, totalmente em choque, contando que o prédio onde
todos trabalhavam desabou devido a uma explosão. E que não havia sobreviventes.
Atônito,
Lúcio vira-se em direção a Pedro, que o fita inexpressivamente.
– Pedro...
Como... Como isso pode ter acontecido? Não é possível! Fala alguma coisa,
porra!
– Termina a
carta.
E Lúcio,
mesmo incrédulo, retoma a leitura, do mesmo ponto onde parou.
“Mas o que me
dói mesmo, o que eu não consigo tirar da minha cabeça e não consigo entender é
que acontece agora, meu amigo. A essa altura já deve ter recebido uma ligação
que confirma que as minhas visões estavam certas. Todos se foram, mas você está
aqui, em pé na minha sala. Isso mostra que o futuro é certo e não temos como
lutar contra, o livre arbítrio é uma piada do destino. O porquê de tudo isso
parece não ter importância, somos brinquedos nas mãos do tempo. E eu não posso
ir contra a maré, não tenho forças pra isso. Toda a minha vida, e a sua também,
foram feitas, arquitetadas pra esse momento que se aproxima. O momento mais
difícil da minha vida, pois a decisão que tomei (ou tomarei) acabará comigo
para sempre. Mas creio que seja o melhor a ser feito. Não aguentarei ver
novamente o que aconteceu com você. Dentre todos, Lúcio, a sua morte foi a mais
cruel de todas para mim. Por favor, me perdoe e facilite as coisas. Não reaja.”
Ao chegar
nesse trecho da carta, Lúcio levanta os olhos e vê Pedro, chorando, com uma pistola na mão, apontando para seu
peito. O barulho é percebido antes da dor do impacto, que é percebida depois da
queda. Estupefato com o que aconteceu, Lúcio ainda tem forças para ver Pedro
largar a arma, com os olhos escancarados e vazios, imóvel. Lúcio encosta a
cabeça no chão e aguarda o escuro, que não vem. Põe a mão no peito e percebe
que não há sangue, levanta a cabeça e olha pro peito onde uma marca roxa
destaca-se atrás de um celular em pedaços, no bolso da camisa. Ao perceber que
o que era pra ter acontecido não acontece, Pedro atira-se, incrédulo, ao sofá,
sem saber o que pensar.
– Não
entendo, eu, eu vi você morrer por um tiro meu! Eu matei você, Lúcio! Por que
ainda está vivo?
– Cara! Não
sei o que você viu, mas não foi o que aconteceu. Como pôde fazer isso??? É
muita loucura pra um dia só, porra! No fim das contas, tive uma sorte incrível,
mas não graças a você! Pedro, olha, eu não vou dar queixa, eu prometo. Mas
nunca mais quero te ver, nem por perto. Saia da cidade, mude de estado, se
possível. Por favor.
– Lúcio,
alguma coisa deu errado, cara. Me escuta, não tá certo. Você deveria ter
morrido com um tiro meu.
– E que merda
de destino é esse em você decide atirar em mim? Quem te obrigou a isso, porra?
Então, como
numa epifania tudo ficou claro para Pedro. Assim como acontecera com o velho no
beco, estava acontecendo com ele agora. Sentiu alívio por saber que não seria o
responsável pela morte de Lúcio e, mais ainda, por não ter ideia de como isso
aconteceria, nem quando. Levantou do sofá, aproximou-se de Lúcio e pegou em
suas mãos, ainda trêmulas pelo choque.
– Me perdoa,
cara. Não tenho como explicar isso, mas agora, tudo ficará claro.
E quando as
mãos se tocaram, como um golpe, imagens indefinidas e confusas tomaram conta da
visão de Lúcio, que, tonto, caiu ao chão, paralisado. Quando suas mãos largaram
as de Pedro, sentiu um peso enorme, como se estivesse carregando o segredo do
mundo e permaneceu ali, imóvel, por um bom tempo. Pedro, ao contrário,
sentira-se leve como há muito tempo não acontecia. Uma lágrima de libertação
escorreu por seu rosto. Saiu em direção à porta, como se não importasse pra
onde fosse. Não pensou em Lúcio ferido em seu apartamento, não pensou em seus
colegas, não pensou. Apenas sorriu, como há muito tempo não sorria.

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