Luciano Cáceres
“Curioso é o mundo”, dizia
Fabinho, assim mesmo, invertido. Mais por achar que “Curioso”
seria o nome do mundo, do que um simples floreio na frase que ouvira
em um filme de época na TV. Fabinho tinha uma peculiar forma de
raciocínio, pensando sempre o que para nós seria impensável, ou
interpretando as coisas de um modo que nunca interpretaríamos.
Para ele, o mundo era cheio de
animais e coisas esquisitas. Um dia, distraído, lendo no sofá da
sala, Fabinho ouviu sua mãe gritar e correu pro quarto pra saber o
que era. “Umamosca”, disse ela, mais tranquila. E Fabinho ficou o
dia inteiro imaginando o que poderia ser o tal de “umamosca”.
Soava como um monstro alienígena de fala arrastada e boca pequena.
Até fez um desenho e colocou na parede, na esperança de que um dia
Umamosca aparecesse em seu quarto e se reconhecesse.
Outra vez, na escola, sua
professora disse algo que intrigou Fabinho muitíssimo. Perguntada
por um aluno por que ainda não viajamos no tempo (era aula de
História), ela, dramaticamente, respondeu: “Há mais coisa entre o
céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.” O aluno não
entendeu nada, mas adorou a resposta, assim como Fabinho, pois ele
nunca tinha visto uma van filosofia, só a Topic e a Kombi, que o
levava todo dia pra escola. Quis perguntar para a professora, mas ela
estava tão empolgada explicando sua frase dramática ao colega, que
não quis interrompê-la. Ao ir embora, no caminho para casa, ficou
prestando atenção ao tráfego na tentativa de encontrar a tal van.
Acabou tonto e desistiu.
Tantas coisas estranhas que ouvia
e enchia sua pequena cabeça de dúvidas, que Fabinho um dia decidiu
perguntar à pessoa mais sábia que ele conhecia no seu mundo
Curioso. Sua avó, que passava os dias lendo e fazendo o que comer.
Quando não estava lendo e comendo. Sua casa era cheia de livros
pequenos e grandes, velhos e novos. O pai de Fabinho sentia uma
inveja tremenda da boa vista da avó, já que ele usava óculos desde
que Fabinho se lembra. Um óculos muito esquisito, na verdade, pois
era “degrau”. Até hoje Fabinho não viu seu pai usando os óculos
para alcançar alguma coisa, nem subindo em cima.
Pois foi Fabinho até a casa da
sua avó, que não morava longe, para fazer-lhe as mais difíceis
perguntas que ele tinha. Chegando lá, teve que tomar cuidado com um
gato que sempre lhe assustava, pois era bravo e agressivo. Estava
sempre na árvore da frente da casa da avó, espreitando quem
passasse por ali. A avó dizia a Fabinho que ele era perigoso porque
ele morava na rua e não era “do Méstico”. Fabinho ficou
pensando que esse senhor deveria ser um excelente adestrador de
animais.
Perguntou, então, Fabinho, suas
perguntas. A avó, muito acostumada a perguntas de crianças
curiosas, decidiu, antes de responder, alimentar não a mente, mas o
corpo do seu neto. E fez um delicioso bolo de chocolate, o favorito
de Fabinho. Enquanto Fabinho se lambuzava com o bolo, vó Amélia
(era esse o nome dela) explicava tudo para ele. Mas de uma forma
muito mais imaginativa e interessante do que um outro adulto poderia
fazer. Explicou vó Amélia que as coisas podem ser sem graça ou
interessantes, dependendo do modo em que as vemos, entre outras
explicações não-explicativas. E assim saiu Fabinho, achando seu
mundo muito mais doce e Curioso do que achava quando tinha entrado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário