Escuro. Escuro e frio. Mas não havia vento. Não havia vento nem
barulho onde estava. Não sabia onde estava. Não sabia porque estava
ali e não sabia como chegara ali. Que lugar era esse? Apesar da
escuridão e do frio, sentia uma certa paz, uma tranquilidade. Devia
ser o silêncio, silêncio sempre é apaziguante. Ouvia sua própria
respiração, o peito indo e voltando. O que aconteceu? Era pra estar
ali? Se não, onde deveria estar? Tanta desorientação fez com que
resolvesse se levantar. Nem tinha percebido que estava deitado, não
parecia fazer muita diferença. Não percebeu também que estava sem
roupas, talvez o porquê de sentir frio. Tateou o chão e não
encontrou nada. Não encontrou o chão, aliás. Sabia que estava
apoiado sobre alguma coisa, mas não parecia ser um piso ou qualquer
outra coisa do tipo. Onde, afinal, estava?
Logo o silêncio começou a incomodar, a temperatura já não era tão
confortável e o escuro parecia mais denso, quase tátil. Tinha que
sair dali e resolveu correr. Correr no escuro, em qualquer
circunstância, é perigoso, pois não se enxerga o que está à
frente, nem abaixo. Mas ali não parecia fazer diferença. Parecia
que nem mesmo seus cabelos sentiam o deslocamento do ar, devido à
corrida. Não ouvia seus pés baterem no chão. Aquilo seria a morte?
O fim da vida? O céu não poderia ser, de acordo com o que conhecia
sobre isso. Mas o que realmente conhecia? Mesmo assim, preferiu
acreditar que, se estivesse passado dessa pra uma melhor, aquele
lugar seria o inferno.
Inferno, veja só. Nunca acreditara nessas coisas e agora estava ali,
no seu inferno particular. Sim, particular, pois não parecia haver
mais ninguém ali. Teria que passar sem companhia pelo resto do
tempo? Tão sociável que era, isso faria falta. Mas também sempre
gostara de solidão, coisa que tinha de sobra, agora. O que faria pra
passar o tempo? Exercícios físicos pareciam não fazer sentido em
um lugar onde não se sente o próprio deslocamento. Teria que ocupar
a mente. Parou pra pensar no seu passado e percebeu que não lembrava
de nada. Qual era o seu nome mesmo? Aquilo sim o perturbou. Ficar ali
sem ninguém era aceitável, mas não ter o que fazer não poderia
aceitar. Tinha que fazer algo pra sair dali.
Gritou. O mais alto que pôde. E sentiu-se alegre ao ouvir a própria
voz, já não aguentava mais aquele silêncio. Porém nada aconteceu.
Nem mesmo um eco aconteceu. Mas queria barulho, não aguentava mais o
silêncio. Resolveu contar uma história pra si próprio. Sentou, ou
melhor, dobrou as pernas, e começou falar sobre um reino com uma
princesa. Mas logo desistiu. Não tinha criatividade pra contar
histórias. Ainda menos pra contos de fadas e princesas.
O tempo foi passando e parecia que estava há anos naquele lugar
nenhum. Já tinha cantado, gritado, pulado, ficado quieto.
Curiosamente não dormira, nem sentira vontade. Sentia frio, mas não
sede nem fome. Foi quando ouviu algo parecido com uma voz, muito
baixo, parecendo distante. Porém durou pouco. Mas foi suficiente pro
seu coração acelerar. Prestou o máximo possível de atenção pra
tentar ouvir novamente. Nada. Somente um longo tempo depois é que
ouviu novamente. Dessa vez, seguido de um facho de luz. Não era
forte, mas para seus olhos desacostumados com claridade, foi como se
colocassem uma lanterna diretamente em seu rosto.
Foi caminhando lentamente em direção à luz, que aumentava. Não
ouvia as vozes, mas tinha esquecido desse detalhe. A luz ia
aumentando. Apressou o passo. Sabia que a luz seria o caminho para
sair daquele lugar. Acreditava nisso. Já não caminhava, corria. E
rápido. A luz estava tão forte que agora não havia escuridão e
era como se estivesse em um lugar totalmente branco. Já estava com
um sorriso enorme em seu rosto quando sem aviso e inesperadamente a
luz sumiu, de modo tão inexplicável quanto surgira. Procurou em
todos os lugares, nada. Não enxergava nada, somente a escuridão.
Percebeu então que nunca mais sairia dali. E chorou.

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