quarta-feira, 10 de abril de 2013

Escuro


 Escuro. Escuro e frio. Mas não havia vento. Não havia vento nem barulho onde estava. Não sabia onde estava. Não sabia porque estava ali e não sabia como chegara ali. Que lugar era esse? Apesar da escuridão e do frio, sentia uma certa paz, uma tranquilidade. Devia ser o silêncio, silêncio sempre é apaziguante. Ouvia sua própria respiração, o peito indo e voltando. O que aconteceu? Era pra estar ali? Se não, onde deveria estar? Tanta desorientação fez com que resolvesse se levantar. Nem tinha percebido que estava deitado, não parecia fazer muita diferença. Não percebeu também que estava sem roupas, talvez o porquê de sentir frio. Tateou o chão e não encontrou nada. Não encontrou o chão, aliás. Sabia que estava apoiado sobre alguma coisa, mas não parecia ser um piso ou qualquer outra coisa do tipo. Onde, afinal, estava?
Logo o silêncio começou a incomodar, a temperatura já não era tão confortável e o escuro parecia mais denso, quase tátil. Tinha que sair dali e resolveu correr. Correr no escuro, em qualquer circunstância, é perigoso, pois não se enxerga o que está à frente, nem abaixo. Mas ali não parecia fazer diferença. Parecia que nem mesmo seus cabelos sentiam o deslocamento do ar, devido à corrida. Não ouvia seus pés baterem no chão. Aquilo seria a morte? O fim da vida? O céu não poderia ser, de acordo com o que conhecia sobre isso. Mas o que realmente conhecia? Mesmo assim, preferiu acreditar que, se estivesse passado dessa pra uma melhor, aquele lugar seria o inferno.
Inferno, veja só. Nunca acreditara nessas coisas e agora estava ali, no seu inferno particular. Sim, particular, pois não parecia haver mais ninguém ali. Teria que passar sem companhia pelo resto do tempo? Tão sociável que era, isso faria falta. Mas também sempre gostara de solidão, coisa que tinha de sobra, agora. O que faria pra passar o tempo? Exercícios físicos pareciam não fazer sentido em um lugar onde não se sente o próprio deslocamento. Teria que ocupar a mente. Parou pra pensar no seu passado e percebeu que não lembrava de nada. Qual era o seu nome mesmo? Aquilo sim o perturbou. Ficar ali sem ninguém era aceitável, mas não ter o que fazer não poderia aceitar. Tinha que fazer algo pra sair dali.
Gritou. O mais alto que pôde. E sentiu-se alegre ao ouvir a própria voz, já não aguentava mais aquele silêncio. Porém nada aconteceu. Nem mesmo um eco aconteceu. Mas queria barulho, não aguentava mais o silêncio. Resolveu contar uma história pra si próprio. Sentou, ou melhor, dobrou as pernas, e começou falar sobre um reino com uma princesa. Mas logo desistiu. Não tinha criatividade pra contar histórias. Ainda menos pra contos de fadas e princesas.
O tempo foi passando e parecia que estava há anos naquele lugar nenhum. Já tinha cantado, gritado, pulado, ficado quieto. Curiosamente não dormira, nem sentira vontade. Sentia frio, mas não sede nem fome. Foi quando ouviu algo parecido com uma voz, muito baixo, parecendo distante. Porém durou pouco. Mas foi suficiente pro seu coração acelerar. Prestou o máximo possível de atenção pra tentar ouvir novamente. Nada. Somente um longo tempo depois é que ouviu novamente. Dessa vez, seguido de um facho de luz. Não era forte, mas para seus olhos desacostumados com claridade, foi como se colocassem uma lanterna diretamente em seu rosto.
Foi caminhando lentamente em direção à luz, que aumentava. Não ouvia as vozes, mas tinha esquecido desse detalhe. A luz ia aumentando. Apressou o passo. Sabia que a luz seria o caminho para sair daquele lugar. Acreditava nisso. Já não caminhava, corria. E rápido. A luz estava tão forte que agora não havia escuridão e era como se estivesse em um lugar totalmente branco. Já estava com um sorriso enorme em seu rosto quando sem aviso e inesperadamente a luz sumiu, de modo tão inexplicável quanto surgira. Procurou em todos os lugares, nada. Não enxergava nada, somente a escuridão. Percebeu então que nunca mais sairia dali. E chorou.  

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