Estavam ali fazia dois dias naquele quarto de hospital escuro,
bagunçado. A mesa cheia de objetos hospitalares usados, o chão um
pouco pegajoso com algum líquido desconhecido. Uma pia com a cuba
cheia d'água e um copo plástico do lado. Na cama, um homem perto
dos seus sessenta anos, aparentando ter mais, deitado,
semiconsciente. Em cima dele, uma coberta puída, suja, mas que ainda
cumpria sua função. Sobre essa coberta, embalagens vazias de
salgadinho e biscoito recheado, única coisa que conseguiram
carregar até ali. A escuridão era por causa da janela que tinha
sido obstruída com o armário de madeira que tinha no quarto. Dera
trabalho ser arrastado até ao outro lado do quarto, mas compensara o
esforço. Ninguém tentou entrar por ali. O fato de ser no terceiro
andar ajudou um pouco, também. A lâmpada já estava queimada quando
chegaram. A única luz que vinha era da lanterna de led, ligada há
mais de meia hora. Provavelmente não duraria mais meia.
Tinha sido difícil para eles chegarem até ali, o mais velho estava
fraco e precisava de cuidados médicos urgentes. O mais novo estava
bem, mas o cansaço estava quase o vencendo, afinal já fazia dias
que fugiam e o hospital pareceu um bom lugar pra se esconderem e se
recuperarem. Conseguiram algumas horas de paz e biscoitos do
refeitório. Até mesmo cochilaram. Porém não tardou para ouvirem
sons de passos e ruídos, o que significava que os perseguidores
estavam próximos dali. Perseguidores que pareciam não cansar nunca
e sempre cada vez mais perto. Por um tempo, os dois homens
conseguiram se impor perante a força dos perseguidores quando ainda
eram um grupo com quase vinte pessoas. Após um bom período de
vitórias, uma estratégia errada fez com que o grupo perdesse muitos
membros e isso acabou fortalecendo quem eles combatiam. Sobrou,
então, recuar. Uma, duas, três vezes. A cada fuga, a cada escapada,
o grupo ia se reduzindo até deixar de ser um grupo e passar a ser
uma dupla. Que estava desgastada pela interminável fuga e pela
convivência, que deixava o ar mais pesado e o ambiente
claustrofóbico, mesmo quando estavam ao ar livre. Não se suportavam
mais, na verdade. Porém um precisava do outro, agora mais do que
nunca. O mais velho tinha a paciência e o raciocínio rápido para
escaparem dos perseguidores enquanto o mais novo tinha a vitalidade,
a força e um bom conhecimento sobre quem os perseguiam. Até se
davam bem no início, quando nenhum dos dois liderava o grupo. Mas
quando o mais velho passou a tomar as decisões, houve um racha onde
o principal opositor era o mais novo. Racha esse que durou somente
até a fatídica noite em que decidiram emboscar um grupo de
opositores que os perseguiam há dias. Quem acabou emboscado foi o
grupo que fugia e a partir daí, a maré virou de lado.
Tinham chegado com muito esforço a esse hospital de uma pequena
cidade que parecia deserta, abandonada às pressas. Ali, na cidade,
conseguiram um pouco de provisão pra mais alguns dias e roupas
novas, que as deles já estavam bem desgastadas e não mais os
protegiam do frio da noite. A lanterna de led também foi um baita
achado, evitava que tivessem que fazer uma fogueira. Mas quem os
perseguiam eram rápidos e numerosos e quase os encontraram quando
estavam justamente procurando por alguma arma para se defenderem.
Felizmente, encontraram o hospital. Não podiam se deslocar com
velocidade, pois o mais velho estava fraquejando devido à má
alimentação e o esforço contínuo de manter-se sempre em movimento
e em alerta. Trancaram todas as entradas que puderam encontrar do
hospital e subiram ao andar mais alto, para o quarto mais distante da
rua. Após um breve descanso e alimentação parca, encontraram-se
novamente em alerta devido aos passos que podiam ser ouvidos ao
longe, devido ao eco dos corredores.
Não tinham mais forças para fugir. Logo seriam encontrados e mortos
sem piedade. Talvez até lentamente, coisa que já aconteceu com
outros ex-companheiros. O mais velho, ao acordar e ver que o mais
novo se encontrava encostado à parede, sentado com a cabeça baixa, resolve chamá-lo.
– Ei, guri, o que houve? Vai se entregar assim? Ainda podemos fazer
algo.
– Claro, podemos abrir a porta e facilitar o serviço deles. Não
temos mais pra onde escapar. Olha pra você! Tá que não se aguenta
acordado, como pensa em fugir? Talvez ainda teríamos uma chance se
tivesse me escutado! Talvez todos estariam vivos e poderíamos montar
nossa resistência aqui, nessa cidade, em vez de atacá-los na
floresta, que eles conhecem muito bem. Mas nãaao, sua arrogância
foi a culpada por tudo isso!
– Olha, guri, eu já estou arrependido o suficiente pra tu ficar
jogando isso na minha cara o tempo todo. Acha que não lamento a
morte de todos? O meu erro? Eu vi uma oportunidade e acreditei no
nosso potencial, no que tínhamos! Chega de ficar falando sobre isso.
Não adianta mais nada, mesmo. Eu já estou com o pé na cova, mas tu
ainda pode escapar. Tu ainda lembra o motivo de tudo isso? Ainda
lembra porque estamos fugindo há tanto tempo e pra onde estamos
indo? Lembra?
– Às vezes eu esqueço. Faz muito tempo que só o que fazemos é
correr e se esconder e torcer pra não ser encontrado enquanto
dormimos. E não sei mais se vale a pena. Nem sei mais se acredito
que a Resistência exista. Estou cansado, velho, cansado de fugir sem
parar.
– Guri idiota! Quem tinha que tá assim era eu, não tu! É por tua
causa, pelo que TU sabe sobre esses malditos que estamos fugindo! Tu
conseguiu informações importantes demais pra desistir agora. É a
nossa esperança, caralho! A minha esperança! E tu não tem o
direito de desistir! Tu tem que chegar até a Resistência...
Faltou ar. Tomou um pouco de fôlego e continuou:
– Me escuta, só mais essa vez.
– Do mesmo jeito que te escutei naquele dia?
– Só mais essa vez, porra! Olha... eu já estou morto, não vou
conseguir fugir, além de estar te atrasando. Eu queria acreditar que
conseguiria chegar até a Resistência, que sobreviveria pra ver
esses desgraçados correrem da gente em vez de nós termos que fazer
isso... espera, deixa eu pegar um ar... Tu ainda tem aquela granada?
– Tenho. Mas o combinado era usarmos somente quando estivéssemos
em uma distância segura que não revelasse a nossa posição. Usar
aqui não vai adiantar nada. Podem ser somente batedores que estão
por perto.
– Tu acredita mesmo nisso? Olha, tu vai escapar pela janela, vai
andar pela parede até a borda e vai usar aquela árvore pra
descer. Eu sei que tu consegue, tu sempre foi bom nessas acrobacias.
Leva o que restou de comida, eu seguro eles aqui. Vou explodir
aqueles filhos da puta e te dar uma folga.
– Enlouqueceu, né? Isso não vai adiantar de nada, além de
mostrar onde estamos. A gente já tá ferrado, velho imbecil, não
vai funcionar.
– Faz o que eu tô dizendo, guri, tu nunca gostou de mim, não é
agora que vai se preocupar com isso. Escuta, escuta! Eles estão
vindo, tu tem poucos minutos pra fugir. Vai, porra!
E vendo a determinação do homem mais velho, o mais jovem junta o
que restou de comida, coloca tudo na mochila e desobstrui a janela.
Já com metade do corpo pra fora, uma ultima olhada para o velho, que
agora estava em pé, mas quase sem conseguir se sustentar.
– Vai, guri, antes que eu não aguente e apague antes deles
chegarem.
– Ei, Bob.
– Que é?
– Obrigado.
– Acha a Resistência, guri, tu consegue. Vai!
O velho agora se encontrava sozinho, se apoiando na cama, esperando o
inevitável, que não tardou muito. Ao contrário do que o mais novo
pensava, não eram somente batedores, mas cerca de cinquenta
perseguidores preenchiam o corredor que dava acesso ao quarto. E
quando a porta foi arrombada e foram rodeando sem pressa o velho,
como se saboreassem a presa prestes a ser abatida, Bob apenas
sorriu. E ouviu-se um pino caindo ao chão.

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