Inspirado na canção "Livros no quintal", de Vitor Ramil
E choveu, choveu, choveu. Após toda a água que caiu,
viu tudo que tinha feito. Os livros encharcados, páginas coladas, capas
enrugadas e desbotadas, papelão pronto pra ser reciclado. Roupas não mais
úteis, tão molhadas quanto os livros, com rombos em formato de rosto. Na sala,
discos tão arranhados que seria impossível dizer que alguma vez houve uma
agulha passando harmonicamente entre aqueles sulcos. A casa destruída. Por ele
mesmo. Por um impulso. Passado o momento e a chuva, parecia, agora, algo muito idiota.
Era sua casa, seu lar. Embora cúmplice dos melhores momentos que teve com ela,
não tinha culpa nenhuma do que acontecera. E ele continuava ali e, seus
cachorros embriagados do vinho de ontem, também. Menos culpados ainda.
Após um longo suspiro, de quem sabe o que vem pela
frente, começou a limpeza. Como pôde ter feito isso com o aquele disco do
Queen, um dos seus primeiros? Em silêncio, pediu perdão a Freddie Mercury e a
todos os outros ali jogados ao chão, em meio ao forro da casa, que também destruíra.
Não sabia que tinha essa força demolidora. Menos ainda que poderia fazer isso
com coisas que ele gostava tanto. E surpreendeu-se pensando que quem desnudara
essa faceta sua tinha sido ela. Que também não tinha culpa. O culpado era ele
próprio, somente. Não fora o que prometera ser. Desde o início foi um mentiroso
que prometeu o mundo a ela. E ela só queria estar ao seu lado.
Três horas arrumando a casa e nem metade do estrago
havia sido recolhido. Deixou o quintal para o final, pois não conseguia, ainda,
encarar seus tão amados livros daquele jeito. Irrecuperáveis, irreconhecíveis e
irreconciliáveis com seu passado. Nesse tempo todo pensou no tempo, porque
realmente acontecera o que pedira. A chuva veio sem dó nem piedade, mas com
muita força. Engraçado, pois sempre teve azar com esse tipo de pedido. Quando
queria sol, vinha nuvens carregadas, quando pedia um pouco de vento, pra
amenizar o calor modorrento, vinha somente aquele ar parado, que já estava ali
há muito tempo, quase tangível. O clima nunca foi uma aliado e, quando esperava
(no fundo esperava mesmo) que não tivesse suas preces atendidas, prontamente
aconteceu o (in)esperado.
Cachorros recuperados da ressaca, carro no conserto,
louça quebrada na lixeira e corredor transitável. Estava quase tudo em seu
lugar, inclusive as velas, porque ainda não tinha luz. A casa, assim como ele,
estava se recuperando. Ela iria se recuperar bem. Iriam ficar algumas
cicatrizes na parede, provavelmente. E seu quintal nunca mais seria o mesmo.
Aliás, o quintal tinha sido a parte mais difícil. A cada livro recolhido, uma
dor de arrependimento vinha pelo braço. Mas fora forte e recolhera todos. Ficou
surpreso ao perceber que um tinha se salvado. Por ironia do destino, um que
nunca tinha achado nada de mais, que comprara por pura curiosidade. E estava
assim, aos poucos botando as coisas em ordem, quando sentiu um vento mais
forte. Olhou para o céu e nuvens carregadas juntavam-se rapidamente. Ao baixar
a cabeça, ouviu o arrastar do portão no chão marcado por tantos abres e fechas.
Passos tão conhecidos quanto a melodia de Radio Gaga. E choveu.

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