terça-feira, 29 de julho de 2014

Livros no quintal

Inspirado na canção "Livros no quintal", de Vitor Ramil

E choveu, choveu, choveu. Após toda a água que caiu, viu tudo que tinha feito. Os livros encharcados, páginas coladas, capas enrugadas e desbotadas, papelão pronto pra ser reciclado. Roupas não mais úteis, tão molhadas quanto os livros, com rombos em formato de rosto. Na sala, discos tão arranhados que seria impossível dizer que alguma vez houve uma agulha passando harmonicamente entre aqueles sulcos. A casa destruída. Por ele mesmo. Por um impulso. Passado o momento e a chuva, parecia, agora, algo muito idiota. Era sua casa, seu lar. Embora cúmplice dos melhores momentos que teve com ela, não tinha culpa nenhuma do que acontecera. E ele continuava ali e, seus cachorros embriagados do vinho de ontem, também. Menos culpados ainda.
Após um longo suspiro, de quem sabe o que vem pela frente, começou a limpeza. Como pôde ter feito isso com o aquele disco do Queen, um dos seus primeiros? Em silêncio, pediu perdão a Freddie Mercury e a todos os outros ali jogados ao chão, em meio ao forro da casa, que também destruíra. Não sabia que tinha essa força demolidora. Menos ainda que poderia fazer isso com coisas que ele gostava tanto. E surpreendeu-se pensando que quem desnudara essa faceta sua tinha sido ela. Que também não tinha culpa. O culpado era ele próprio, somente. Não fora o que prometera ser. Desde o início foi um mentiroso que prometeu o mundo a ela. E ela só queria estar ao seu lado.

Três horas arrumando a casa e nem metade do estrago havia sido recolhido. Deixou o quintal para o final, pois não conseguia, ainda, encarar seus tão amados livros daquele jeito. Irrecuperáveis, irreconhecíveis e irreconciliáveis com seu passado. Nesse tempo todo pensou no tempo, porque realmente acontecera o que pedira. A chuva veio sem dó nem piedade, mas com muita força. Engraçado, pois sempre teve azar com esse tipo de pedido. Quando queria sol, vinha nuvens carregadas, quando pedia um pouco de vento, pra amenizar o calor modorrento, vinha somente aquele ar parado, que já estava ali há muito tempo, quase tangível. O clima nunca foi uma aliado e, quando esperava (no fundo esperava mesmo) que não tivesse suas preces atendidas, prontamente aconteceu o (in)esperado.
Cachorros recuperados da ressaca, carro no conserto, louça quebrada na lixeira e corredor transitável. Estava quase tudo em seu lugar, inclusive as velas, porque ainda não tinha luz. A casa, assim como ele, estava se recuperando. Ela iria se recuperar bem. Iriam ficar algumas cicatrizes na parede, provavelmente. E seu quintal nunca mais seria o mesmo. Aliás, o quintal tinha sido a parte mais difícil. A cada livro recolhido, uma dor de arrependimento vinha pelo braço. Mas fora forte e recolhera todos. Ficou surpreso ao perceber que um tinha se salvado. Por ironia do destino, um que nunca tinha achado nada de mais, que comprara por pura curiosidade. E estava assim, aos poucos botando as coisas em ordem, quando sentiu um vento mais forte. Olhou para o céu e nuvens carregadas juntavam-se rapidamente. Ao baixar a cabeça, ouviu o arrastar do portão no chão marcado por tantos abres e fechas. Passos tão conhecidos quanto a melodia de Radio Gaga. E choveu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário