segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dez reais

Dedicado a Lise Peres.
Baseado em fatos reais. 

Marla estava desempregada e a bolsa que ganhava mal dava pra sustentar o santo café de cada dia do bar da universidade. Fazia alguns bicos em bares, mas ultimamente era só ensaios. Os shows garantidos estavam no futuro e suas necessidades, no presente. Tudo bem, dá-se um jeito, dizia. Seus pais ajudavam. De vez em quando. Por isso aquelas saídas com os amigos estavam resumidas a tomar um mate na praça, pois era baratinho e sempre divertido. Nem na época das vacas gordas deixou de fazer isso.  Estar com seus amigos era sagrado para ela.
Falando em amigos, eles seguidamente davam uma mãozinha para Marla, que agradecia toda sorrisos e abraços, característica sua. Para eles, a mãozinha estava mais do que paga. Às vezes, pois ninguém ali era rico. Além do mais, não dava pra ficar sem o café de antes da aula. O do pós era dispensável, porém fazia falta. Foi no café pós aula que Marla se despediu deles e rumou para sua casa, distante dois ônibus da universidade. Seu cartão do ônibus, felizmente tinha ainda o suficiente para o retorno e Marla pôde chegar ao seu bairro sem percalços. Porém da parada, ainda tinha que caminhar algumas quadras para finalmente poder chegar em casa e se atirar na cama. Por tédio, decidiu fazer um caminho diferente e dobrou uma rua antes que a rota usual. Estava distraída com seu telefone, quando, fortuitamente, encontra uma nota de dez reais. Quase não acreditando no que via, abaixou-se e pegou-a, que era real, aliás. Antes de colocar no bolso, já pensando no fim que daria à ela, viu que tinha alguma coisa escrita. Afff, sempre tem um simpatia, pensou. Mas o que leu a deixou intrigada, parecia que era diretamente para ela. Desconfiada, olhou para os lados para ver se não tinha caído em alguma brincadeira de seus amigos. Nenhum deles por perto. Dez reais não se acha todo dia, e, pelo sim, pelo não, resolveu guardar o tesouro no bolso.
No outro dia, quando precisou ir pegar o ônibus para ir para o centro fazer uma série de coisas, passou por aquela rua novamente. E surpresa! Outra nota de dez reais no mesmo lugar que ontem. Aquilo não era possível, era demais para uma pessoa só. Ainda mais ela, rainha da falta de sorte. Novamente não perdeu a oportunidade de ficar dez reais menos pobre. Porém, ao ter a nota em suas mãos percebeu que dizia a mesma coisa que a outra. Puxou a carteira da mochila para conferir e viu que a nota não mais estava lá. Marla não estava entendendo nada. Só podia ser sacanagem de alguém. Como que foi arquitetado esse plano mirabolante era secundário. O que importava é que não podia crer que a nota saíra de sua carteira para aquela rua. Pela segunda vez, guardou os dez reais e seguiu seu rumo. Foi e voltou para casa, sem passar por aquela rua dessa vez. E sem gastar os dez reais, milagrosamente.
Fim de semana chegou e agora poderia tomar uma cerveja com o pessoal. Na verdade, sempre tomava, mas agora poderia participar da conta, pois Marla tinha sua honra e precisava zelar por ela. Ao fim da noite, já na hora da divisão dos custos, foi pegar o dinheiro e viu que não estava mais ali. Definitivamente estava se irritando com aquela situação. Como isso era possível? Impulsionada pela bebida, talvez, pensou em correr para aquela rua e ver se a nota estava lá. Apenas pensou, pois, no primeiro impulso, suas pernas não obedeceram e Marla quase caiu na frente do bar. Estava um pouco alterada, já. Riu, como sempre faz em situações como essa, e pediu desculpas por não poder dividir a conta novamente. Ao ir embora para casa, teve que passar por aquela rua. Não conseguiria dormir sem saber se a nota estava ali ou não. E estava mesmo! Riu alto na rua. Um gato que estava por ali saiu em disparada. Era uma brincadeira, sim. Mas do destino, com certeza. Só pra não deixar dúvidas, verificou se tinha algo escrito na nota. Como suspeitava, a mesma frase: “Sempre estarei aqui, sempre sua.”

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