“Ah, que belo dia pra passear no parque!” Ele
disse. “Vai ser divertido, vamos!” Ele disse. Queria de todas as maneiras ir ao
parque tomar chimarrão e ver o movimento. “Que coisa de gente velha!” Eu disse,
mas ele não estava prestando muito atenção no que eu dizia. Então fomos, né?
Que eu poderia ter feito? Me encerrado no banheiro? (Se bem que, pensando
agora, poderia ter sido uma boa.) Fui com aquela cara de tacho, não disse quase
nada durante a ida. Fiquei só escutando as músicas que tocavam. E ele dirigindo,
feliz da vida. Pro meu azar o trânsito
estava bom e não levamos nem dez minutos pra chegar ao parque. Bem quando
estava tocando uma das minhas favoritas. Por não ter ouvido até o final, fiquei
com a maldita música na cabeça. “Mas você lembraaaaaaaa, você vai lembrar de
mim...” o dia todo. Pra me animar, lembrei que tinha um vendedor que fazia um
churros deliciosíssimo e gordurosíssimo. Azar da barriga, estava de mau-humor e
não iria ficar sem um churros. Ou dois, quem sabe. Melhor número ímpar, então.
Três churros na sequência. Impressionantemente, eu não consegui achar ele. Mas
achei o vendedor de algodão-doce, o vendedor de rapadura, de refrigerante e
salgadinhos. Continuei com vontade de churros.
“Que o nosso amor valeu a penaaaaaa,
lembraaaaaaaa...” Continuava a música. Sentamos no gramado (úmido) ao sol e
começamos a tomar chimarrão. Eu, sem dizer uma palavra, ele mais feliz que
cachorro em dia de churrasco. Pra não dizer que foi só derrota esse dia,
encontrei um amigo que há tempos não via. Conversamos por poucos minutos, mas
aquilo me deu forças pra encarar o resto da manhã, que se arrastava. Era
cachorro chato correndo na volta, criança chata pentelha atrás do cachorro
chato, pais desesperados correndo atrás de criança pentelha correndo atrás de
cachorro chato. E eu abstraindo tudo para sobreviver até o meio-dia, só
esperando o almoço. Porém, antes de chegar a bendita hora, ele inventou de
tirar algumas fotos. Claro que quem teria que fotografou tudo foi eu, enquanto
ele posava na estátua do General Fulano Sem Nome e seu cavalo imponente, com o
amigo que vê todos os dias, deitado na grama (úmida), e etc. Metade foi pro
instagram. Nem metade teve curtidas, bem feito.
“É o nosso final feliz! Você vai lembraaaar,
vai lembrar simmmmm...” a todo vapor na cabeça. Eu estava realmente de mau
humor desde que tinha aberto os olhos e nem sabia direito porquê. O dia estava
realmente bonito, ele tinha razão. Não comi churros, mas me empanturrei de
outros doces que gosto tanto quanto, os cachorros e as crianças e os pais das
crianças até que não estavam tão insuportáveis, mas eu estava. E na hora do
almoço, quando até ele já estava querendo ficar de mau humor, eu pedi desculpas
por estar naquele jeito. Ele, como que notando, facilitou pra mim e disse que
estava tudo bem, que se quisesse iríamos pra casa, sem problemas. Eu já estava
me sentindo melhor e falei que não era necessário, que poderíamos ficar mais um
pouco.
Depois do almoço, nos deitamos no gramado (agora seco) pra comermos umas
bergamotas e lagartearmos um pouco ao sol. Acabei cochilando e sonhando com o
Tedy Corrêa cantando aquela música que insistia em não desgrudar. Acabaria
deixando de gostar dela assim. Nesse meio tempo, se foi quase uma hora. Fomos
dar uma volta pelos camelôs, só pra olhar mesmo, já que quase nunca tem algo
que me interesse. Ele gastou cinquenta reais em bugigangas. Porta celular de
super-herói, quadro de disco de vinil, escultura de arame. Coisa incomum da
parte dele, devia ser o ótimo humor.
“Esse foi um beijo de despedida, que se dá uma
vez só na vida...” E fomos embora do parque. Meu humor até que já estava quase
em níveis aceitáveis. A barriga é que estava fora dos limites toleráveis, mas
eu iria compensar nos outros dias, com certeza. Um pouco de excesso de vez em
quando não faz mal a ninguém. Ao
chegarmos em casa, novamente eu pedi desculpas pela péssima companhia
que fui. E ele tão adorável, o tempo todo. Estava em um dia em que nada me
agradava e tudo era problema. Liguei a tv pra ver se me distraía um pouco, mas
logo desisti. Domingo não há uma coisa que preste. Fui pro facebook e não
ajudou em nada. Saí tão logo entrei. Ao fim do jantar leve, pois já estava
estourando pela comilança do dia, enquanto tirava a louça para lavar (não era a
minha vez, mas tinha que fazer algo pra compensar a má companhia), ele veio e
parou ao meu lado. Sério, compenetrado. Eu perguntei o motivo e ele disse que
precisava contar algo. Larguei o prato sujo e fiquei escutando ele contar do tempo todo
que passamos juntos, dos momentos que tivemos, das viagens, etc. Meu
coração começou a bater acelerado, sem saber o que pensar. Foi quando ele disse
a temível frase: “temos que terminar”. Aquilo foi como uma gota de detergente
em uma louça com gordura. Me desfiz do mesmo jeito. Toda a calma e paciência
comigo hoje foi uma preparação para esse evento, para a revelação do fim do
dia. Explicou que eu mudara muito nos últimos tempos e que ele não me
reconhecia mais. Não como amante, pelo menos. Mas que não queria terminar com
briga, se possível. Era uma decisão tomada que não tinha mais volta. Não
adiantou eu argumentar, gritar, socar a parede ou ameaçá-lo com uma faca suja.
Calmamente, saiu da cozinha e foi em direção ao quarto pegar uma mochila, que
já estava com algumas roupas. Saiu pela porta, dizendo que era melhor para nós
dois. Só pensei em uma coisa, nesse momento: “Mas você lembraaaaaaa, você vai
lembrar de mim. Que nosso amor valeu a penaaa...”

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