Daniella Domingos
A luz natural adentra as inúmeras janelas e ilumina o amplo espaço povoado por livros encapados de poeira que habitam a biblioteca municipal. Avista-se ao lado direito de quem entra enormes estantes repletas de livros há muito tempo aposentados fazendo frente a cinco computadores tubo, enfileirados lado a lado na parte direita de quem entra.
Cotidianamente executava as mesmas tarefas: conferir o acervo, dispor os jornais do dia nas estantes da frente e, quando o dia estava mais agitado, trocar três ou quatro etiquetas que estivessem gastas ou apagadas. O trabalho era simples, é verdade. Passara em primeiro lugar no concurso público estadual em 1986 para o cargo de auxiliar de biblioteca. Concurso para o segundo grau, há que se dizer.
Após a realização das tarefas mais elementares se sentava atrás da pilha matematicamente organizada como fortaleza a roer as unhas, ler e, o mais agradável de tudo, folhear as enciclopédias com imagens de planetas, sistemas e galáxias. "Não tem nada como essa imensidão. O homem é capaz de coisas espetaculares. O dia em que a raça humana chegue a povoar outros planetas, isso, sim, alcançamos o ápice".
Carregava dentro um desejo de mudança frustrado que se escondia em baixo dos cabelos brancos e dos olhos desbotados. Um corpo magro e um sorriso com explícitos efeitos de bruxismo.
Cotidianamente executava as mesmas tarefas: conferir o acervo, dispor os jornais do dia nas estantes da frente e, quando o dia estava mais agitado, trocar três ou quatro etiquetas que estivessem gastas ou apagadas. O trabalho era simples, é verdade. Passara em primeiro lugar no concurso público estadual em 1986 para o cargo de auxiliar de biblioteca. Concurso para o segundo grau, há que se dizer.
Após a realização das tarefas mais elementares se sentava atrás da pilha matematicamente organizada como fortaleza a roer as unhas, ler e, o mais agradável de tudo, folhear as enciclopédias com imagens de planetas, sistemas e galáxias. "Não tem nada como essa imensidão. O homem é capaz de coisas espetaculares. O dia em que a raça humana chegue a povoar outros planetas, isso, sim, alcançamos o ápice".
Carregava dentro um desejo de mudança frustrado que se escondia em baixo dos cabelos brancos e dos olhos desbotados. Um corpo magro e um sorriso com explícitos efeitos de bruxismo.
Frequentemente quando se dedicava à tarefa de admirar o universo chegava mesmo a se emocionar, a sonhar com a imensidão de um mundo, sabia, nunca veria. “Isso aqui deveria ser televisionado. Isso sim, quando mostrem à humanidade a nossa pequenez frente ao universo teremos um mundo melhor.” Cria mesmo na degeneração da sociedade. E cria também na sua superioridade, mais do que tudo, por ser um homem capaz de tão nobremente voltar-se à questões tão grandiosas da humanidade. De fato, sonhava com uma vida que não era a sua. Da mesma forma, dizia-se um homem prático, racional e sério, que desejava, e seria até capaz de fazer, o bem da sociedade.
Recolhera naquele dia uma nova coleção de estudos astronômicos da universidade de Cambridge, uma coleção colorida, com fotos de mais de um ângulo e informações detalhadas das últimas pesquisas e viagens interplanetárias. Sentia-se já enebriado pelos sonhos de progresso que vislumbrava naquelas páginas quando se deparou com a foto de alguém que lhe pareceu conhecido. Piscou os olhos. Voltou a olhar. O corpo magro, cabelos brancos e dentes serrados estavam estampados ao final de um estudo sobre colonização interplanetária. O artigo da revista detalhava milimetricamente os passos, as formas e as vantagens de tal passo, a essa altura do campeonato, fundamental na evolução humana. Chegavam mesmo a sugerir que as viagens para povoamento de outros planetas ocorreria em dez, no máximo, quinze anos.
Inquietou-se olhando a si próprio, virou-se e conferiu o próprio aspecto inverossímil no reflexo do vidro da janela à sua frente. Conferiu abaixo o nome do cientista e pôde ver como as letras se seguiam na mesma ordem, na mesma posição tão conhecida do nome próprio.
Não havia dúvida. A boca roxa, seca e aberta. Os olhos fixos admiravam aquela página, aquela foto. Segundo atrás de segundo foi percebendo que alcançara seu objetivo, tinha finalmente cumprido a sua missão, entregou à humanidade o que a ela faltava. Os olhos foram também arroxeando-se e a pele foi endurecendo. Os olhos fixos, vidrados eram incapazes de desviar a atenção. O coração foi se acalmando, parando quase. E o bibliotecário ali permaneceu com a certeza do dever cumprido.

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