Ah, o feriado! Nada melhor que um
dia de folga da correria semanal. Poder dormir até mais tarde,
colocar as tarefas da escola/universidade/trabalho em dia, faxinar a
casa, ou não, só ficar de perna pra cima. Curtir um sol ou o escuro
do quarto até as três da tarde porque sim. Uma pausa na nossa
rotina sempre é bem-vinda e nesse feriado especificamente, gostaria
de falar sobre algo que aconteceu comigo ontem e me fez pensar.
Vivemos em dias turbulentos e
incertos. O número de empregos que se antes não aumentava tanto,
pelo menos não decaia e estava melhorando; as compras no mercado que
só aumentam o preço e diminuem a gramatura (alô, George Orwell!
Estão aumentando nossa ração de chocolate!), entre outras coisas.
No entanto, o que pesa mesmo hoje é o já escancarado e executado
golpe que a nossa claudicante democracia sofreu (mais um). Temos um
presidente ilegítimo no Planalto, apoiado por um legislativo
oportunista e parasita da coisa pública, além de um judiciário no
mínimo conivente com tudo.
E o que preocupa mais é ver as
pessoas contestando esse fato, dizendo que Temer já estava na chapa
de Dilma quando ela foi eleita e que, portanto, também o escolhemos
como nosso representante. Esse é um argumento tão tosco e errado,
que ter que explicá-lo parece algo meio estúpido de se fazer, do
mesmo modo que seria se tivéssemos que explicar porque não
conseguimos voar. É óbvio, não? Não temos asa, logo não voamos.
Perfeito. Você saberia explicar por que não temos asa? Ou só por
nãos as termos não podemos decolar do chão e dar uns rasantes por
aí?
Muito provável que sim, uma vez
que não é mistério nenhum, só que tomaria um pouco mais de tempo
pra explicar tudo direitinho e, talvez, um pouco mais de reflexão,
né? O exemplo do vice importante na hora do voto segue o mesmo
raciocínio (ainda que o exemplo tenha sido ruim, desculpe). Ninguém
lembra do vice na hora de votar para presidente, governador ou
prefeito. Ninguém pensa no suplente na hora de votar para senador e
deputado (e a quantidade de suplentes que assumem é espantosa).
Ninguém o faz porque o vice é quase decorativo e, mais importante,
o vice é uma continuidade dos ideais do presidente ou governador.
Quem escolheria um vice que pensa o contrário, ou, pelo menos, que
diz que vai fazer tudo diferente na ausência do titular? Loucura,
né? É, mas fomos surpreendidos novamente e temos outro vice (do
mesmo partido, o PMDB, que coincidência!) na presidência de forma
indireta.
Olhando pelo retrovisor da
história, parece um tanto óbvio que foi um erro de Dilma ter
escolhido Michel Fora Temer como seu vice. Se formos discutir os
erros do PT nesse texto, vão acabar as páginas do Word (Libre
Office, na verdade). Temer assumir e mudar completamente o programa
de governo da presidenta eleita faz dele duplamente golpista: por ter
derrubado Dilma e por ter traído seu plano de governo. E não foi em
um vice assim que “escolhemos” (nunca escolhemos vice, né? Só
pra não deixar dúvidas sobre as aspas).
Então, quando ouço esse
argumento, de que Temer já estava na chapa quando Dilma foi eleita
e, portanto, temos que aturá-lo, primeiramente me vem aquela imagem
dos olhos revirando e uma certa irritação por ainda ouvir algo
desse tipo. Depois vem a reflexão, pois a pessoa que diz isso talvez
não esteja acostumada a ver o outro lado da notícia e aceita a
primeira informação que lhe chega (via Globo?), não percebendo,
assim, o real funcionamento e motivação do impedimento da
ex-presidenta e o porquê de tanto protesto contra Michel Fora Temer.
Daí o pensamento de que explicar o óbvio talvez não seja assim tão
óbvio e desnecessário e que, às vezes, temos que mostrar o que
está por trás da obviedade (da nossa obviedade, pois cada um tem a
sua própria visão de algo e, pra essa pessoa, pode ser algo
diferente do que você vê. Saussure manda um abraço).
(Re)aprendi isso ontem, ao
conversar com a Dani sobre uma mulher no mesmo ônibus onde eu estava
que disse exatamente a ideia de Temer já estar na chapa da Dilma e
por isso soaria absurdo quererem tirar primeiro ela, depois o seu
vice, uma vez que seriam “farinha da mesma chapa” (como se fossem
as mesmas pessoas protestando contra Dilma e Temer). Deu vontade de
explicá-la o óbvio, que os protestos são contra o julgamento
tendencioso e político da Dilma; que deveria ser apenas jurídico,
mas aí não teríamos julgamento, pois não houve crime; que a
presidenta foi deposta por seus erros administrativos e políticos;
porque a direita do Brasil não aceita perder;que foi acusada de uma
coisa e julgada culpada por outro; que o impedimento foi um grande
teatro; que Temer é um dos cabeças do golpe e que está acabando
com todos os avanços sociais dos últimos governos; que as pessoas
que queriam Dilma fora com a desculpa da corrupção, agora silenciam
com Temer que é verdadeiramente corrupto; que... ufa, é muita
coisa. Tudo isso me passou pela cabeça, mas eu não disse nada,
estava cansado e só queria ficar quieto no meu canto e chegar logo
em casa.
Resolvi escrever esse texto, que
não é um tratado sobre política, nem um sermão pra quem apoiou o
impedimento (isso é outro assunto) para comentar esse fato e
refletir sobre as nossas obviedades e as obviedades dos outros.
O feriado me fez refletir sobre
tudo isso (um post do Marcos Bagno sobre independência também
ajudou) e como cada um vê o golpe que estamos vivendo, que nem
sempre é questão da orientação partidária da pessoa, apenas que
ela não tem uma visão da coisa como um todo (e não estou dizendo
que sou o dono da verdade, por favor!). Um feriado que não vejo
razão nenhuma para celebração, mas que, por me proporcionar um
descansinho no meio da semana, me é bem-vindo. Foi graças a ele que
pude escrever esse texto e se você concorda ou não comigo, vamos
conversar, comenta aqui embaixo o que você pensa. Suas ideias serão
bem-vindas, desde que dentro dos limites da civilidade. Um bom
descanso pra você.

Nenhum comentário:
Postar um comentário