Acordou aflita.
A bexiga dolorida de tanto
segurar a urina da noite. Calçou as pantufas de macaquinho e
caminhou com seu pijama estampado de pinguim até o banheiro. Acendeu
a luz do aposento, ofuscando sua visão por alguns segundos, porém,
maquinalmente, seguiu pelo banheiro e realizou a tarefa única a que
se destinarias às três da manhã de uma terça feira, sozinha no
seu apartamento. Retornando para a cama ela viu de relance uma sombra
depositada na pia do banheiro. Ainda parou e refletiu se era mesmo
verdade ou uma sombra de sua imaginação sonolenta. Cascuda e
nojenta, com antenas compridas que “detectavam o inimigo” e
patinhas peludas de arrepiar qualquer um, ela estava posicionada
estrategicamente no ponto mais difícil da cerâmica do azulejo, uma
espécie de curva sinuosa dos lavatórios. Não é que não tivesse o
ímpeto assassino de esmagar aquele animal asqueroso que roubara o
sossego da madrugada instalando-se em local tão inoportuno, mas
acontece que o chinelo não cabia na pia. Não dava, não iria
matá-la, no máximo assustar e fazer com que corresse por aí para
deixar ovos cheios de filhotinhos que tomariam a casa para depois
batizá-la de “a casa do Joe”.
Guardou aquela impressão para si
fingindo não tê-la visto para não possibilitar uma possível fuga
de emergência. De qualquer forma preferiu não apagar a luz na
volta, precisaria acendê-la e nem por um segundo valeria a pena
perder o inimigo de seu campo de visão. Foi até a parte de baixo do
gabinete da cozinha e procurou sua arma letal, comprada por algumas
patacas no supermercado e legalizada por empresas muito respeitáveis,
já que propiciavam tão útil ferramenta de aniquilação dessa
classe de ortópteros. Não tinha, o último havia sido despejado
violentamente sobre uma das amiguinhas daquela ali, talvez a mãe ou
uma tia.
Duas possibilidades lhe
ocorreram, a primeira seria apagar a luz do banheiro e ir dormir
rezando para que ela tivesse ido embora pela manhã ou caminhado até
um lugar onde pudesse ser facilmente esmagada, a segunda seria
dirigir-se até o supermercado 24 horas mais próximo e ajudar a
humanidade a exterminar a dita escória. A segunda foi a eleita. Ela
desceu as escadas do prédio o mais rápido que podia, dando graças
a Deus por morar no segundo piso.
Ligou o carro depressa já com o
controle do portão acionado na mão direita. O supermercado ficava a
apenas duas quadras. Desceu do carro com um moletom extremamente
grande que tentava esconder o pijama. Foi direto à seção “produtos
de limpeza” se armou fortemente e dirigiu-se ao caixa. O rapaz de
óculos que estava aí encarou-a assim como quem tem vontade de
perguntar alguma coisa mais receio suficiente para não fazê-lo.
Pagou e saiu. Dirigiu rápido na volta, subiu as escadas correndo e
entrou devagar para não assustar a vítima, havia deixado a luz do
banheiro acesa como se tivesse simplesmente esquecido, rompeu o lacre
de proteção sem muita dificuldade, já tinha alguma experiência,
caminhou devagar até o banheiro e espiou para dentro da pia. A
desgraçada estava lá, corajosa e desafiadora não tinha feito
muitos movimentos, apenas adentrado um pouco mais a curva sinuosa da
pia, suas antenas se mexiam, alertas. Colocando em posição o seu
canhão ela dirigiu o jato violentamente em direção à sua
adversária, que escorregou de costas, a humana sorria frenética
desejando a vitória, a outra, já meio ébria, sacudia as patas
peludas denunciando despudoradamente seu ventre desenhado. Alguns
movimentos involuntários e estava pronto, agora seriam menos milhões
delas no mundo.
A vencedora da batalha ainda
esperou alguns segundos para ter certeza de sua vitória, enrolou um
exagerado maço de papel higiênico e envolveu o cadáver, o cesto do
lixo foi o local do sepultamento. Depois que voltou a dormir pensou
que precisava de um homem.

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