domingo, 2 de outubro de 2016

Insetos

Acordou aflita.
A bexiga dolorida de tanto segurar a urina da noite. Calçou as pantufas de macaquinho e caminhou com seu pijama estampado de pinguim até o banheiro. Acendeu a luz do aposento, ofuscando sua visão por alguns segundos, porém, maquinalmente, seguiu pelo banheiro e realizou a tarefa única a que se destinarias às três da manhã de uma terça feira, sozinha no seu apartamento. Retornando para a cama ela viu de relance uma sombra depositada na pia do banheiro. Ainda parou e refletiu se era mesmo verdade ou uma sombra de sua imaginação sonolenta. Cascuda e nojenta, com antenas compridas que “detectavam o inimigo” e patinhas peludas de arrepiar qualquer um, ela estava posicionada estrategicamente no ponto mais difícil da cerâmica do azulejo, uma espécie de curva sinuosa dos lavatórios. Não é que não tivesse o ímpeto assassino de esmagar aquele animal asqueroso que roubara o sossego da madrugada instalando-se em local tão inoportuno, mas acontece que o chinelo não cabia na pia. Não dava, não iria matá-la, no máximo assustar e fazer com que corresse por aí para deixar ovos cheios de filhotinhos que tomariam a casa para depois batizá-la de “a casa do Joe”.
Guardou aquela impressão para si fingindo não tê-la visto para não possibilitar uma possível fuga de emergência. De qualquer forma preferiu não apagar a luz na volta, precisaria acendê-la e nem por um segundo valeria a pena perder o inimigo de seu campo de visão. Foi até a parte de baixo do gabinete da cozinha e procurou sua arma letal, comprada por algumas patacas no supermercado e legalizada por empresas muito respeitáveis, já que propiciavam tão útil ferramenta de aniquilação dessa classe de ortópteros. Não tinha, o último havia sido despejado violentamente sobre uma das amiguinhas daquela ali, talvez a mãe ou uma tia.
Duas possibilidades lhe ocorreram, a primeira seria apagar a luz do banheiro e ir dormir rezando para que ela tivesse ido embora pela manhã ou caminhado até um lugar onde pudesse ser facilmente esmagada, a segunda seria dirigir-se até o supermercado 24 horas mais próximo e ajudar a humanidade a exterminar a dita escória. A segunda foi a eleita. Ela desceu as escadas do prédio o mais rápido que podia, dando graças a Deus por morar no segundo piso.
Ligou o carro depressa já com o controle do portão acionado na mão direita. O supermercado ficava a apenas duas quadras. Desceu do carro com um moletom extremamente grande que tentava esconder o pijama. Foi direto à seção “produtos de limpeza” se armou fortemente e dirigiu-se ao caixa. O rapaz de óculos que estava aí encarou-a assim como quem tem vontade de perguntar alguma coisa mais receio suficiente para não fazê-lo. Pagou e saiu. Dirigiu rápido na volta, subiu as escadas correndo e entrou devagar para não assustar a vítima, havia deixado a luz do banheiro acesa como se tivesse simplesmente esquecido, rompeu o lacre de proteção sem muita dificuldade, já tinha alguma experiência, caminhou devagar até o banheiro e espiou para dentro da pia. A desgraçada estava lá, corajosa e desafiadora não tinha feito muitos movimentos, apenas adentrado um pouco mais a curva sinuosa da pia, suas antenas se mexiam, alertas. Colocando em posição o seu canhão ela dirigiu o jato violentamente em direção à sua adversária, que escorregou de costas, a humana sorria frenética desejando a vitória, a outra, já meio ébria, sacudia as patas peludas denunciando despudoradamente seu ventre desenhado. Alguns movimentos involuntários e estava pronto, agora seriam menos milhões delas no mundo.
A vencedora da batalha ainda esperou alguns segundos para ter certeza de sua vitória, enrolou um exagerado maço de papel higiênico e envolveu o cadáver, o cesto do lixo foi o local do sepultamento. Depois que voltou a dormir pensou que precisava de um homem.

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