sábado, 22 de outubro de 2016

Tradição fúnebre

 Daniella Domingos

Epitáfio era um tipo comum, sossegado, mantinha boas relações com o “socialmente aceitável” e cumpria suas responsabilidades, pagava as dívidas do cartão de crédito e vez ou outra dava-se à generosidade da paciência da tolerância e da simpatia para com os demais, o que, caracterizava-o, segundo as lentes alheias, bom sujeito, cortês e educado.
Acontece, no entanto, que alguns eventos da vida nos pegam despreparados para encará-los com a devida maturidade e coragem de espírito. Certa ocasião, Epitáfio também foi acometido por uma eventualidade.
Em uma dessas noites em que saímos com uns amigos e fazemos muitas coisas, algumas das quais provavelmente nos envergonharemos, Epitáfio foi flagrado em fotografias que fugiam do seu padrão “socialmente aceitável”.
Na manhã seguinte à “curtida”, essa não foi a primeira coisa que o atormentou, pois nos primeiros momentos do despertar a lembrança vinha quase que como um sonho, seguido rapidamente do pensamento de possibilidade que passou rápido como uma flecha ao pressentimento da absoluta certeza. Essa tem a capacidade de atormentar a mente e o coração de qualquer criatura.
A primeira reação foi a dúvida, ou a tentativa de dúvida – tentar duvidar que aquilo realmente houvesse acontecido talvez ajudasse, mas logo percebeu que não, então levantou a camiseta e verificou com pavor as marcas na barriga.
Ligou para um e outro “amigo” (ele estava disposto a repensar essas relações de amizade), todos confirmaram o ocorrido, a inconveniência, o vexame. De um deles foi que recebeu a notícia: - Mas o Cristóvão gravou tudinho (risos)! Se quiser saber como foi, é só ver o vídeo, ele disse que colocaria na internet, dá uma olhadinha.
O pânico gelou sua barriga como se um dos polos (o Sul ou Norte, tanto faz) tivesse se condensado em um iceberg e entrado por sua garganta de forma tão bruta que a arranhasse.
Não respondeu. Desligou o telefone e levantou-se da cama indo em direção ao computador.
Enquanto ligava, ele pensava na família, na irmã e na mãe que veriam a cena humilhante no bar, veriam a confissão da indecência, não o reconheceriam porque aquela era sua pior face.
O choque de ver a chamada do vídeo foi apavorante também, fizeram questão de pôr seu nome no título para que ficasse explícito de quem se tratava.
O vídeo foi visualizado algumas várias vezes, demorou apenas semanas para que ele não pudesse sair de casa. Ouvia os comentários dos vizinhos, do porteiro, das empregadas que subiam para o serviço, das pessoas na rua, no supermercado, no banco, etc.
Nas redes sociais é que foi o mais difícil de aguentar, era um post pior que o outro, tudo de péssimo gosto. Os e-mails não paravam de chegar, lotaram sua caixa de entrada. Twittavam o tempo todo a história, comentando com riqueza de detalhes a história toda.
No emprego ele não apareceu mais, telefonaram, mas o aviso de abandono logo chegou.
Algumas semanas depois do ocorrido, ele levantou em uma manhã de chuva, dessas que é capaz de nos deixar bem deprimidos e, com o cinto que havia comprado para combinar com o terno que usou no casamento da irmã, se enforcou. Na cidadezinha que morava esse escândalo foi maior que o primeiro.

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