Daniella Domingos
Acontece,
no entanto, que alguns eventos da vida nos pegam despreparados para
encará-los com a devida maturidade e coragem de espírito. Certa
ocasião, Epitáfio também foi acometido por uma eventualidade.
Em
uma dessas noites em que saímos com uns amigos e fazemos muitas
coisas, algumas das quais provavelmente nos envergonharemos, Epitáfio
foi flagrado em fotografias que fugiam do seu padrão “socialmente
aceitável”.
Na
manhã seguinte à “curtida”, essa não foi a primeira coisa que
o atormentou, pois nos primeiros momentos do despertar a lembrança
vinha quase que como um sonho, seguido rapidamente do pensamento de
possibilidade que passou rápido como uma flecha ao pressentimento da
absoluta certeza. Essa tem a capacidade de atormentar a mente e o
coração de qualquer criatura.
A
primeira reação foi a dúvida, ou a tentativa de dúvida – tentar
duvidar que aquilo realmente houvesse acontecido talvez ajudasse, mas
logo percebeu que não, então levantou a camiseta e verificou com
pavor as marcas na barriga.
Ligou
para um e outro “amigo” (ele estava disposto a repensar essas
relações de amizade), todos confirmaram o ocorrido, a
inconveniência, o vexame. De um deles foi que recebeu a notícia: -
Mas o Cristóvão gravou tudinho (risos)! Se quiser saber como foi, é
só ver o vídeo, ele disse que colocaria na internet, dá uma
olhadinha.
O
pânico gelou sua barriga como se um dos polos (o Sul ou Norte, tanto
faz) tivesse se condensado em um iceberg e entrado por sua garganta
de forma tão bruta que a arranhasse.
Não respondeu. Desligou o
telefone e levantou-se da cama indo em direção ao computador.
Enquanto
ligava, ele pensava na família, na irmã e na mãe que veriam a cena
humilhante no bar, veriam a confissão da indecência, não o
reconheceriam porque aquela era sua pior face.
O
choque de ver a chamada do vídeo foi apavorante também, fizeram
questão de pôr seu nome no título para que ficasse explícito de
quem se tratava.
O
vídeo foi visualizado algumas várias vezes, demorou apenas semanas
para que ele não pudesse sair de casa. Ouvia os comentários dos
vizinhos, do porteiro, das empregadas que subiam para o serviço, das
pessoas na rua, no supermercado, no banco, etc.
Nas
redes sociais é que foi o mais difícil de aguentar, era um post
pior que o outro, tudo de péssimo gosto. Os e-mails não paravam de
chegar, lotaram sua caixa de entrada. Twittavam o tempo todo a
história, comentando com riqueza de detalhes a história
toda.
No
emprego ele não apareceu mais, telefonaram, mas o aviso de abandono
logo chegou.
Algumas
semanas depois do ocorrido, ele levantou em uma manhã de chuva,
dessas que é capaz de nos deixar bem deprimidos e, com o cinto que
havia comprado para combinar com o terno que usou no casamento da
irmã, se enforcou. Na cidadezinha que morava esse escândalo foi
maior que o primeiro.

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