Tempos interessantes são esses
em que o Nobel de Literatura vai para Bob Dylan. Há pessoas a
favor e contra. Alguns dizendo que não se pode dar um prêmio
de Literatura a
um músico; outros dizem que as músicas (ou as letras) de Dylan são
poesia pura. Mas
por que esse fato gerou tanto burburinho? Parece que essa discussão
nos leva para uma pergunta simples, mas com uma resposta nebulosa: o
que é, afinal, literatura? Essa pergunta é feita e discutida à
exaustão nos cursos de Letras e as respostas variam bastante umas
das outras. Para resumir, pois não é esse o objetivo desse texto,
fico com uma (não) definição da professora Marisa Lajolo, que diz
que não há uma
resposta para o que é literatura, pois sua definição depende do
grupo social, do tempo, ou lugar que se propõe a defini-la.
É
importante, também, analisarmos a premiação. O prêmio Nobel
existe desde 1901 e abrange Física, Química, Fisiologia ou
Medicina, Literatura, Paz e Ciências Econômicas (este, incluso em
1968). O objetivo do prêmio é laurear pessoas com relevantes
contribuições para a humanidade. A escolha dos laureados é feita
pela Academia Real de Ciências da Suécia, Instituto Karolinska de
Medicina, a Academia Sueca (Literatura) e pelo parlamento norueguês
(Paz). Muitas vezes, o prêmio dado não é considerado uma
unanimidade. Um exemplo recente envolveu o Nobel da Paz a Barack
Obama, em 2009, “por esforços diplomáticos internacionais e
cooperação entre povos.” Porém, o mesmo presidente manteve a
prisão de Guantánamo aberta. Mais recentemente, em 2012, a União
Europeia foi laureada com o mesmo prêmio “por mais de seis décadas
contribuindo para o avanço da paz e reconciliação, democracia e
direitos humanos na Europa.” Organização que exigiu drásticas
medidas para a “salvação” econômica da Grécia.
Por
que, então, o braço literário da premiação estaria livre de
polêmicas? E outra pergunta que me faço é por que o prêmio a
Dylan é polêmico?
Vejamos
os argumentos prós: o cantor estadunidense tem um livro de poesia
publicado (Tarântula, 1971) e suas letras podem ser consideradas
poesia pura. Além disso, o conceito de literatura também pode
abranger letras de música. O fato de um cantor ser premiado também
oxigena a própria literatura e ainda dá visibilidade ao prêmio,
uma vez que o próprio Dylan é mais famoso que o Nobel de
Literatura.
Contra esses argumentos temos
que, em primeiro lugar, há muitos outros escritores (que escrevem
como profissão) que mereceriam prioridade, como Lygia Fagundes
Telles, que foi, inclusive indicada ao prêmio esse ano. Ou o japonês
Haruki Murakami.
Também ouve-se o argumento de que Dylan não é
escritor, mas músico e que essa arte já é bastante beneficiada com
prêmios de peso e notoriedade.
Pessoalmente,
eu me senti dividido no início, mas agora estou mais inclinado a
concordar com quem acha que foi merecido o prêmio. Veja, não estou
discutindo aqui o talento de Dylan como cantor, apenas o fato de um
músico ganhar um prêmio de literatura por suas músicas (e não
pelo livro publicado). Como dito em conversas com meus amigos
invítricos (se você não sabe do que estou falando, clique aqui),
é ótimo que um “não-escritor” seja premiado, pois permite
justamente a discussão sobre literatura e ajuda a pensar um pouco
fora da caixinha.
Por
outro lado, também concordo que há tantos escritores que mereceriam
antes de Dylan, mas, parando pra analisar, nunca que haveria justiça
nesse raciocínio, pois não há prêmio o bastante pra abarcar todos
os escritores merecedores de um Nobel. (Só pra complementar, em off:
Alice
Munro ganhou em 2013 e seus contos não me tocaram, achei bem
parecidos uns com os outros). Creio que o motivo das premiações não
seja somente o “notório saber” (ando preocupado com esse
conceito) em literatura ou mesmo o quão famoso é o premiado. Eu,
pessoalmente, em minha humilde bolha, não conheço as obras dos
últimos quatro laureados (sem contar Dylan e Munro).
Em resumo, temos como resultado a
discussão e a literatura nas rodas de conversa, o que, pra mim, é
sempre positivo. E se for pra começar a ouvir Bob Dylan, o prêmio
já está mais do que justificado.

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