quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ainda Bob Dylan

Tempos interessantes são esses em que o Nobel de Literatura vai para Bob Dylan. Há pessoas a favor e contra. Alguns dizendo que não se pode dar um prêmio de Literatura a um músico; outros dizem que as músicas (ou as letras) de Dylan são poesia pura. Mas por que esse fato gerou tanto burburinho? Parece que essa discussão nos leva para uma pergunta simples, mas com uma resposta nebulosa: o que é, afinal, literatura? Essa pergunta é feita e discutida à exaustão nos cursos de Letras e as respostas variam bastante umas das outras. Para resumir, pois não é esse o objetivo desse texto, fico com uma (não) definição da professora Marisa Lajolo, que diz que não há uma resposta para o que é literatura, pois sua definição depende do grupo social, do tempo, ou lugar que se propõe a defini-la.
É importante, também, analisarmos a premiação. O prêmio Nobel existe desde 1901 e abrange Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura, Paz e Ciências Econômicas (este, incluso em 1968). O objetivo do prêmio é laurear pessoas com relevantes contribuições para a humanidade. A escolha dos laureados é feita pela Academia Real de Ciências da Suécia, Instituto Karolinska de Medicina, a Academia Sueca (Literatura) e pelo parlamento norueguês (Paz). Muitas vezes, o prêmio dado não é considerado uma unanimidade. Um exemplo recente envolveu o Nobel da Paz a Barack Obama, em 2009, “por esforços diplomáticos internacionais e cooperação entre povos.” Porém, o mesmo presidente manteve a prisão de Guantánamo aberta. Mais recentemente, em 2012, a União Europeia foi laureada com o mesmo prêmio “por mais de seis décadas contribuindo para o avanço da paz e reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa.” Organização que exigiu drásticas medidas para a “salvação” econômica da Grécia.
Por que, então, o braço literário da premiação estaria livre de polêmicas? E outra pergunta que me faço é por que o prêmio a Dylan é polêmico?
Vejamos os argumentos prós: o cantor estadunidense tem um livro de poesia publicado (Tarântula, 1971) e suas letras podem ser consideradas poesia pura. Além disso, o conceito de literatura também pode abranger letras de música. O fato de um cantor ser premiado também oxigena a própria literatura e ainda dá visibilidade ao prêmio, uma vez que o próprio Dylan é mais famoso que o Nobel de Literatura.
Contra esses argumentos temos que, em primeiro lugar, há muitos outros escritores (que escrevem como profissão) que mereceriam prioridade, como Lygia Fagundes Telles, que foi, inclusive indicada ao prêmio esse ano. Ou o japonês Haruki Murakami.
Também ouve-se o argumento de que Dylan não é escritor, mas músico e que essa arte já é bastante beneficiada com prêmios de peso e notoriedade.
Pessoalmente, eu me senti dividido no início, mas agora estou mais inclinado a concordar com quem acha que foi merecido o prêmio. Veja, não estou discutindo aqui o talento de Dylan como cantor, apenas o fato de um músico ganhar um prêmio de literatura por suas músicas (e não pelo livro publicado). Como dito em conversas com meus amigos invítricos (se você não sabe do que estou falando, clique aqui), é ótimo que um “não-escritor” seja premiado, pois permite justamente a discussão sobre literatura e ajuda a pensar um pouco fora da caixinha.
Por outro lado, também concordo que há tantos escritores que mereceriam antes de Dylan, mas, parando pra analisar, nunca que haveria justiça nesse raciocínio, pois não há prêmio o bastante pra abarcar todos os escritores merecedores de um Nobel. (Só pra complementar, em off: Alice Munro ganhou em 2013 e seus contos não me tocaram, achei bem parecidos uns com os outros). Creio que o motivo das premiações não seja somente o “notório saber” (ando preocupado com esse conceito) em literatura ou mesmo o quão famoso é o premiado. Eu, pessoalmente, em minha humilde bolha, não conheço as obras dos últimos quatro laureados (sem contar Dylan e Munro).
Em resumo, temos como resultado a discussão e a literatura nas rodas de conversa, o que, pra mim, é sempre positivo. E se for pra começar a ouvir Bob Dylan, o prêmio já está mais do que justificado.

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