sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Um voto

 Outro exercício de escrita. Um pouquinho melhor que o anterior. 


Era um professor sisudo e de poucas palavras. Suas aulas eram as mais ortodoxas possíveis. Seus alunos, poucos se atreviam a perturbar sua aula. Não era mal educado, mas bastante severo. Nem era o professor preferido da classe, claro, mas estava longe de ser o mais odiado. Estava ali, no limbo entre o céu e o inferno da preferência dos alunos. Todos os anos, quando os alunos votavam no melhor professor, ele recebia poucos votos, nunca era eleito. Porém, não esboçava reação nenhuma em relação ao resultado, parecia indiferente para ele ser o primeiro ou o último.
Com o fim do ano se aproximando, época das provas finais e a perspectiva das tão esperadas férias, os alunos andavam mais agitados do que no resto do ano. E os professores também, já que estavam no mesmo barco, só que no remo oposto. Esse professor tinha um aluno que era particularmente complicado, pois era um dos que menos gostavam dele e um dos que mais perturbava durante a aula. Era complicado lidar com ele, pois parecia que punições como ser retirado da sala ou receber pontos negativos não estavam resolvendo. Apesar de ser bagunceiro, não era ofensivo e nem seu desempenho era ruim. Mas por ter sido retirado várias vezes da sala de aula e ganhado vários pontos negativos, corria o risco de rodar. Seria sua primeira vez e isso deixou o aluno preocupado.

Foi resolvido, então, fazer uma reunião entre os professores, pais do aluno, direção e o próprio aluno. A conversa foi extensa e difícil. De um lado, os pais argumentando que o filho não poderia rodar porque suas notas eram boas, as punições é que estavam erradas. De um outro, a direção contra-argumentando dizendo que o aluno deveria arcar com as consequências de seus atos. O professor só ouvia a todos. O aluno também, mas temeroso pelo resultado. Após tanto debate, ficou decidido que quem daria a palavra final seria o professor, aquele sisudo professor, severo professor. O aluno sentiu suas esperanças evanescerem. Justo ele teria a palavra final? Ele, a quem o aluno tinha perturbado o ano inteiro?

Pois esse professor, após um período de silêncio, decidiu aprovar o aluno. Sim, aprovar. O aluno também não entendeu. “Por que, professor, o senhor está me aprovando, depois de tudo que fiz?” “Porque vejo potencial em ti, apesar de frequentemente atrapalhares minhas aulas, tuas provas, teus trabalhos são bem feitos. E porque estou te dando um voto de confiança. Se te punirmos agora, talvez acabemos por suplantar esse potencial. Aproveita a oportunidade que estamos te dando. E não me desaponte.” E o professor levantou e retirou-se da sala. O aluno ficou um tempo calado, observando aquele professor sisudo, severo, rígido se retirar. E decidiu abraçar a chance que teve e parou de bagunçar. Suas notas até melhoraram. No fim do ano, o professor continuou no limbo das preferências dos alunos, mas, dessa vez, com um voto a mais na eleição.  

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