Outro exercício de escrita. Um pouquinho melhor que o anterior.
Era um professor sisudo e de poucas palavras. Suas aulas eram as mais
ortodoxas possíveis. Seus alunos, poucos se atreviam a perturbar sua
aula. Não era mal educado, mas bastante severo. Nem era o
professor preferido da classe, claro, mas estava longe de ser o mais
odiado. Estava ali, no limbo entre o céu e o inferno da preferência
dos alunos. Todos os anos, quando os alunos votavam no melhor
professor, ele recebia poucos votos, nunca era eleito. Porém, não
esboçava reação nenhuma em relação ao resultado, parecia
indiferente para ele ser o primeiro ou o último.
Com o fim do ano se aproximando, época das provas finais e a
perspectiva das tão esperadas férias, os alunos andavam mais
agitados do que no resto do ano. E os professores também, já que
estavam no mesmo barco, só que no remo oposto. Esse professor tinha
um aluno que era particularmente complicado, pois era um dos que
menos gostavam dele e um dos que mais perturbava durante a aula. Era
complicado lidar com ele, pois parecia que punições como ser
retirado da sala ou receber pontos negativos não estavam resolvendo.
Apesar de ser bagunceiro, não era ofensivo e nem seu desempenho era
ruim. Mas por ter sido retirado várias vezes da sala de aula e
ganhado vários pontos negativos, corria o risco de rodar. Seria sua
primeira vez e isso deixou o aluno preocupado.
Foi resolvido, então, fazer uma reunião entre os professores, pais
do aluno, direção e o próprio aluno. A conversa foi extensa e
difícil. De um lado, os pais argumentando que o filho não poderia
rodar porque suas notas eram boas, as punições é que estavam
erradas. De um outro, a direção contra-argumentando dizendo que o
aluno deveria arcar com as consequências de seus atos. O professor
só ouvia a todos. O aluno também, mas temeroso pelo resultado. Após
tanto debate, ficou decidido que quem daria a palavra final seria o
professor, aquele sisudo professor, severo professor. O aluno sentiu
suas esperanças evanescerem. Justo ele teria a palavra final? Ele, a
quem o aluno tinha perturbado o ano inteiro?
Pois esse professor, após um período de silêncio, decidiu aprovar
o aluno. Sim, aprovar. O aluno também não entendeu. “Por que,
professor, o senhor está me aprovando, depois de tudo que fiz?”
“Porque vejo potencial em ti, apesar de frequentemente atrapalhares
minhas aulas, tuas provas, teus trabalhos são bem feitos. E porque
estou te dando um voto de confiança. Se te punirmos agora, talvez
acabemos por suplantar esse potencial. Aproveita a oportunidade que
estamos te dando. E não me desaponte.” E o professor levantou e
retirou-se da sala. O aluno ficou um tempo calado, observando aquele
professor sisudo, severo, rígido se retirar. E decidiu abraçar a
chance que teve e parou de bagunçar. Suas notas até melhoraram. No
fim do ano, o professor continuou no limbo das preferências dos
alunos, mas, dessa vez, com um voto a mais na eleição.

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