Júlia finalmente chegara em sua casa depois de um dia cansativo no
trabalho. Tantas demandas, tanto barulho, tanta coisa pra fazer.
Subiu vagarosamente as escadas do prédio que ela morava já fazia algum
tempo. Que não gostava, aliás, mas estava difícil achar algum
outro apartamento que nutrisse as suas exigências. Estava difícil
achar qualquer apartamento, na verdade, e, ao terminar esse
pensamento, tinha chegado em frente à sua porta, de número 206.
Enfiou a chave na fechadura, girou-a vagarosamente e finalmente
entrou em seu lar: um apartamento pequeno, mas decorado com esmero.
Jogou as chaves na mesinha de centro da sala e se atirou ao sofá.
Ficou olhando pra TV, sem pensar em nada. Até que decidiu dar uma
olhada na internet e ver se tinha algo interessante. Quem sabe alguma
coisa do Nando, seu namorado, que estava viajando pra fora do estado
faz um tempo. Nando gostava de mandar e-mails apaixonados para Júlia
e já tinha virado um hábito para ela esperar um desses na sua caixa
de entrada. Faziam dois meses que não se viam, Nando estava sempre
viajando devido ao seu trabalho. Júlia detestava isso, mas nunca
disse isso a Nando, obviamente.
Pra aumentar a curiosidade, resolveu olhar o Facebook e o Twitter
primeiramente. Umas solicitações de joguinhos, umas curtidas
aleatórias de foto, três recados de assuntos nada importantes de
suas amigas e uma solicitação de amizade de um cara que nunca vira
na vida. Passou pro microblog. Parado, nenhuma menção. Nem sabia
porquê tinha twitter, na verdade, pois pouco tuitava, apesar de
volta e meia dar algum pitaco em algum tuíte na sua timeline. Pulou
essa rede social mais rápido que o facebook. E finalmente o e-mail.
Umas quinze mensagens sem importância e ali estava! Um e-mail do
Nando. Seu coração disparou, adorava os e-mails dele e a carência
fazia com que esses últimos se tornassem especias, pelo tempo que
estavam separados. Abriu-o e começou a ler.
“Oi, perdi meu celular. O que tenho pra te dizer não deveria ser
por aqui, mas não há outro jeito, no momento. Como você está?
Espero que esteja bem. Eu estou, apesar da correria de ficar pulando
de cidade em cidade. Não sei como explicar isso de um modo que não te
machuque, então lá vai: conheci uma pessoa. Tá, eu já fiquei com
ela, passamos algumas noites juntos. Desculpa ser assim direto, mas
não tem como aliviar um assunto desses. Eu queria te dizer que...”
Nem continuou. Fechou o notebook, segurou alguns segundos as lágrimas
e desatou-se a chorar. Copiosamente. Como uma criança que não teve
o que queria. Alguns minutos chorando e depois veio a pergunta
clássica: por quê? O que ela tinha feito ou deixado de fazer pra
que isso acontecesse? Por acaso não era uma boa namorada? Uma boa
companheira? Por que jogar fora, assim, um namoro de dois anos? Por
quê? Depois de todas essas perguntas, chegou à próxima fase:
precisava fazer alguma coisa. Algo que a ajudasse a aliviar a
situação. E então veio a dúvida: pizza ou sorvete?

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