sábado, 15 de outubro de 2016

Para Adri, com carinho

Todo suicida acredita na vida depois da morte”
Humberto Gessinger


Oi, Adri.
Desculpa te chamar assim, é que me sinto íntimo o bastante para isso. Tu não me conhece, eu sei. Mas eu te acompanho desde quando começou sua carreira, ainda como uma assistente de palco do Chacrinha, lembra? Tu era a mais linda, com aquele olhar tímido e provocante. Eu, prestes a entrar na adolescência e já conhecendo a malícia do mundo, suspirava toda vez que te via. Odiava o programa, mas passei a amar depois que tu apareceu dançando ao lado do Arnaldo Antunes numa apresentação dos Titãs. Horrível, por sinal, mas eu gostava deles. Foram só alguns segundos, um frame, um flash. O bastante pra eu ficar torcendo pra te ver de novo durante o programa.
Espero que não fique chateada por eu dizer que fiquei feliz por seu insucesso no programa do Chacrinha, Adri. É que eu odiava aquele velho, meus pais ficavam a tarde toda assistindo TV, nem ligavam pra mim. Só quando eu tirava a atenção deles, claro. Um grito de ordem ou uma palmada já eram o bastante pra eu voltar pro meu quarto e eles, pra TV. O que me deixou feliz pela tua saída, mesmo, foi que, sem isso, tu jamais apresentaria o Clube Infantil e faria as minhas manhãs felizes. Quando eu acordei cedo numa segunda e liguei a TV, não pude acreditar. Era tu! Mais linda do que nunca, anunciando meus desenhos favoritos. A manhã se tornou a melhor parte do meu dia, porque antes era a pior. Meus pais saíam pro trabalho e eu ficava sozinho, sem ter companhia ou o que fazer. Passava a manhã vendo desenho ou brincando. Sozinho. Sem amigos, pois nunca fui muito popular na escola. Não conhecia ninguém na rua. Meus primos me odiavam. Tinha dias que era legal, mas na maior parte do tempo, só pensava em ter alguma companhia. Tu foi a minha companhia, Adri, por um bom tempo. Eu colecionava tuas fotos das revistas em que aparecia e as guardava numa caixinha. Assistia teu programa de manhã, pensava em ti nas aulas de tarde e sonhava contigo de noite. Melhor parte da minha vida.
Quando teu programa acabou, eu chorei junto contigo naquele dia. Tu chorando na TV, eu chorando no sofá. Não acreditei que tu poderia me abandonar assim. Senti raiva, derrubei a caneca de leite no chão, apanhei da mãe por isso, apanhei do pai por ter chorado por isso, fui ridicularizado na escola por ter ido com uma foto tua dentro do meu caderno. Foi um dia horrível, Adri. Por ter sentido ódio de ti e por saber que no outro dia, tu não estaria lá pra eu te pedir desculpas. Nem ligava pras surras e humilhações que sofria quase todo dia, pois tu estava lá pra me fazer esquecer de tudo. Como eu iria aguentar tudo isso sem ti, Adri?
Mas eu aguentei. Com uma indiferença por tudo que me cercava. Cresci, mas não me esqueci de ti. Minha única namorada da adolescência foi uma guria que se chamava Adriana. Durou pouco. Minhas fotos recortadas de revistas de artistas foram amarelando e se desfazendo, mas tua imagem na minha memória continuava forte.
Eu cresci, Adri. Meus pais morreram, tive que me virar. Trabalhei como um condenado pra me sustentar, nem terminei os estudos. Quando tu voltou pra TV pra fazer um programa musical, minha vida teve sentido novamente, mesmo morando em uma porcaria de casa, numa porcaria de cidade, tendo uma porcaria de emprego. Teu programa era no domingo de manhã, o que me obrigou a acordar cedo no meu único dia de folga, mas eu não me importava. Te ver era o que me motivava. Mesmo quando me pediram pra trocar de turno na fábrica, pra trabalhar no domingo, eu pedi demissão porque não podia ficar sem te ver, Adri
. Demorei pra achar outro emprego fixo, então ficava fazendo bicos. Tive que vender quase tudo que eu tinha, menos a TV, claro. Minha casa ficou resumida na geladeira, no sofá e na TV. O fogão, substituí por um fogareirozinho furreca. Não me fazia falta, já que quase não cozinhava. Não que houvesse muito pra cozinhar, claro.
Perdi minha casa, Adri. Foi num temporal que eu perdi tudo. E quando eu digo tudo, considero a TV, pois o resto já não funcionava mais. Felizmente, eu guardava uma foto tua sempre no meu bolso, assim, não perdi tua presença. Fui morar na caixa de papelão, embaixo da marquise do velho teatro, junto com uns miseráveis. Digo miseráveis porque eles não tinham nada, só a existência de uma vida vazia. Eu tinha a ti, Adri. E, mesmo vivendo entre eles, pedindo dinheiro, comendo restos, eu tinha um motivo pra viver.
Sem TV, passei a vagar perto dos estúdios do canal onde tu trabalhava, onde eu podia te ver passando de carro todos os dias. Algumas vezes, tu me dava a felicidade de passar com a janela aberta e eu podia te ver, ali, passando pertinho de mim, nem que fosse por apenas alguns segundos. Um dia até olhou pra mim. Melhor dia da minha vida.
Hoje, descobri que teu programa foi cancelado, Adri. Que tu vai deixar o país pra ir morar nos EUA. Eu não tenho como te acompanhar desse jeito, é muito longe. Por que fez isso comigo, Adri? Por que vai me abandonar? Preciso, pelo menos, me despedir de ti e dizer o quanto tu é importante pra mim, o quanto te amo e o quanto vou sentir tua falta. Por isso escrevi essa carta, Adri, pra que tu saiba que eu sou o teu maior fã! Sempre fui e sempre serei.
Sei que sou um invisível, desprezado por todos, mas espero que me perdoe por ter feito isso, tenho certeza que me entenderá. Foi o único modo de te fazer chegar essa carta. No momento em que ler isso, já não estarei mais vivo. Minha vida agora é tua, Adri, como sempre foi. Te desejo todo o sucesso do mundo na sua vida nos EUA. Por favor, lembre de mim.
De quem te ama, muito,
João”


MENDIGO SE ATIRA NA FRENTE DO CARRO DE NINA MENEZES”
Morador de rua, que frequentava a entrada dos estúdios de gravação da emissora, se jogou na frente do carro da apresentadora, que não parou para dar assistência. O mendigo morreu na hora.” Notícia do dia 12/04/98.

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