“Todo suicida acredita na vida
depois da morte”
Humberto Gessinger
“Oi, Adri.
Desculpa te chamar assim, é que
me sinto íntimo o bastante para isso. Tu não me conhece, eu sei.
Mas eu te acompanho desde quando começou sua carreira, ainda como
uma assistente de palco do Chacrinha, lembra? Tu era a mais linda,
com aquele olhar tímido e provocante. Eu, prestes a entrar na
adolescência e já conhecendo a malícia do mundo, suspirava toda
vez que te via. Odiava o programa, mas passei a amar depois que tu
apareceu dançando ao lado do Arnaldo Antunes numa apresentação dos
Titãs. Horrível, por sinal, mas eu gostava deles. Foram só alguns
segundos, um frame,
um flash. O bastante pra eu ficar torcendo pra te ver de novo durante
o programa.
Espero que não fique chateada
por eu dizer que fiquei feliz por seu insucesso no programa do
Chacrinha, Adri. É que eu odiava aquele velho, meus pais ficavam a
tarde toda assistindo TV, nem ligavam pra mim. Só quando eu tirava a
atenção deles, claro. Um grito de ordem ou uma palmada já eram o
bastante pra eu voltar pro meu quarto e eles, pra TV. O que me deixou
feliz pela tua saída, mesmo, foi que, sem isso, tu jamais
apresentaria o Clube Infantil e faria as minhas manhãs felizes.
Quando eu acordei cedo numa segunda e liguei a TV, não pude
acreditar. Era tu! Mais linda do que nunca, anunciando meus desenhos
favoritos. A manhã se tornou a melhor parte do meu dia, porque antes
era a pior. Meus pais saíam pro trabalho e eu ficava sozinho, sem
ter companhia ou o que fazer. Passava a manhã vendo desenho ou
brincando. Sozinho. Sem amigos, pois nunca fui muito popular na
escola. Não conhecia ninguém na rua. Meus primos me odiavam. Tinha
dias que era legal, mas na maior parte do tempo, só pensava em ter
alguma companhia. Tu foi a minha companhia, Adri, por um bom tempo.
Eu colecionava tuas fotos das revistas em que aparecia e as guardava
numa caixinha. Assistia teu programa de manhã, pensava em ti nas
aulas de tarde e sonhava contigo de noite. Melhor parte da minha
vida.
Quando teu programa acabou, eu
chorei junto contigo naquele dia. Tu chorando na TV, eu chorando no
sofá. Não acreditei que tu poderia me abandonar assim. Senti raiva,
derrubei a caneca de leite no chão, apanhei da mãe por isso,
apanhei do pai por ter chorado por isso, fui ridicularizado na escola
por ter ido com uma foto tua dentro do meu caderno. Foi um dia
horrível, Adri. Por ter sentido ódio de ti e por saber que no outro
dia, tu não estaria lá pra eu te pedir desculpas. Nem ligava pras
surras e humilhações que sofria quase todo dia, pois tu estava lá
pra me fazer esquecer de tudo. Como eu iria aguentar tudo isso sem
ti, Adri?
Mas eu aguentei. Com uma
indiferença por tudo que me cercava. Cresci, mas não me esqueci de
ti. Minha única namorada da adolescência foi uma guria que se
chamava Adriana. Durou pouco. Minhas fotos recortadas de revistas de
artistas foram amarelando e se desfazendo, mas tua imagem na minha
memória continuava forte.
Eu cresci, Adri. Meus pais
morreram, tive que me virar. Trabalhei como um condenado pra me
sustentar, nem terminei os estudos. Quando tu voltou pra TV pra fazer
um programa musical, minha vida teve sentido novamente, mesmo morando
em uma porcaria de casa, numa porcaria de cidade, tendo uma porcaria
de emprego. Teu programa era no domingo de manhã, o que me obrigou a
acordar cedo no meu único dia de folga, mas eu não me importava. Te
ver era o que me motivava. Mesmo quando me pediram pra trocar de
turno na fábrica, pra trabalhar no domingo, eu pedi demissão porque
não podia ficar sem te ver, Adri
. Demorei pra achar outro emprego
fixo, então ficava fazendo bicos. Tive que vender quase tudo que eu
tinha, menos a TV, claro. Minha casa ficou resumida na geladeira, no
sofá e na TV. O fogão, substituí por um fogareirozinho furreca.
Não me fazia falta, já que quase não cozinhava. Não que houvesse
muito pra cozinhar, claro.
Perdi minha casa, Adri. Foi num
temporal que eu perdi tudo. E quando eu digo tudo, considero a TV,
pois o resto já não funcionava mais. Felizmente, eu guardava uma
foto tua sempre no meu bolso, assim, não perdi tua presença. Fui
morar na caixa de papelão, embaixo da marquise do velho teatro,
junto com uns miseráveis. Digo miseráveis porque eles não tinham
nada, só a existência de uma vida vazia. Eu tinha a ti, Adri. E,
mesmo vivendo entre eles, pedindo dinheiro, comendo restos, eu tinha
um motivo pra viver.
Sem TV, passei a vagar perto dos
estúdios do canal onde tu trabalhava, onde eu podia te ver passando
de carro todos os dias. Algumas vezes, tu me dava a felicidade de
passar com a janela aberta e eu podia te ver, ali, passando pertinho
de mim, nem que fosse por apenas alguns segundos. Um dia até olhou
pra mim. Melhor dia da minha vida.
Hoje, descobri que teu programa
foi cancelado, Adri. Que tu vai deixar o país pra ir morar nos EUA.
Eu não tenho como te acompanhar desse jeito, é muito longe. Por que
fez isso comigo, Adri? Por que vai me abandonar? Preciso, pelo menos,
me despedir de ti e dizer o quanto tu é importante pra mim, o quanto
te amo e o quanto vou sentir tua falta. Por isso escrevi essa carta,
Adri, pra que tu saiba que eu sou o teu maior fã! Sempre fui e
sempre serei.
Sei que sou um invisível,
desprezado por todos, mas espero que me perdoe por ter feito isso,
tenho certeza que me entenderá. Foi o único modo de te fazer chegar
essa carta. No momento em que ler isso, já não estarei mais vivo.
Minha vida agora é tua, Adri, como sempre foi. Te desejo todo o
sucesso do mundo na sua vida nos EUA. Por favor, lembre de mim.
De quem te ama, muito,
João”
“MENDIGO
SE ATIRA NA FRENTE DO CARRO DE NINA MENEZES”
“Morador
de rua, que frequentava a entrada dos estúdios de gravação da
emissora, se jogou na frente do carro da apresentadora, que não
parou para dar assistência. O mendigo morreu na hora.” Notícia do
dia 12/04/98.

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